8 de março: Não me dê flores

Capa 8 de março

Ah! O dia da mulher!
Nem me lembro quando recebi meus primeiros “parabéns”.
Nem gostaria.

Não faz muito tempo que eu me engajei no feminismo. Passei reto por ele nos anos de universidade.
Na verdade, sendo mais criança do que mulher, a vida passa sob nosso nariz mesmo.
Hoje, agraciada pela consciência, ouço as piadinhas incitando machismo e já me procuram os olhares curiosos para perceber minha reação.

Já que nos é permitido permear por pessoas que partilhem de (quase) mesmas ideias e ideais no mundo virtual (pelo menos!), tenho alimentado meu criticismo. Tentando mergulhar na questão do ‘eu feminino’ dentro da sociedade (não só brasileira), dei de cabeça e machuquei-me muitas vezes, mas não desisto.

Há inúmeras versões sobre o dia 8 de março. Primeiramente, é associado à proposta feita em 1910, pela líder comunista alemã Clara Zetkin, durante o II Congresso Internacional de Mulheres Socialistas para lembrar operárias mortas durante um incêndio que ocorreu em uma fábrica em Nova York, em 1857.
Há historiadores que não reconhecem o acontecimento, e que é provável que a morte das trabalhadoras tenha se incorporado ao imaginário coletivo da comemoração do Dia Internacional da Mulher.

Mas o processo para instituir uma data comemorativa já vinha sendo estudada pelas socialistas americanas e européias há algum tempo e acabou sendo confirmada com a proposta de Clara Zetkin em 1910. A data passou a ser comemorada com mais intensidade na década de 60 com o fortalecimento do movimento feminista, quando passaram a ser discutidos problemas da sexualidade, da liberdade ao corpo, do casamento e dos jovens. O fato é que não se sabe com precisão por que o dia 8 de março foi escolhido, mas ele se consagrou ao longo do século XX.
A consagração do direito de manifestação pública veio com apoio internacional, em 1975, quando a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu oficialmente a data como o Dia Internacional da Mulher.

Num passeio tranquilo dentro dos blogs que acompanho, me deparei maravilhosamente com o questionamento sobre o dia 8 de março: o que fundamentou o dia da mulher? Por que os “parabéns”? Quantas vezes terei de ler “hoje é dia da mulher, todos os outros são dos homens” e ver a realidade nas entrelinhas?

Sigo então com uma lista de desejos para este dia:

- Leia sobre feminismo.
Sim, abre ali o Google, tão pertinho do seu clique. Leia que não é o contrário de machismo. Aprenda que é necessário plantar essa semente por onde você passar. Ajude a sua amiga que reproduz machismo a entender o que ela está fazendo – explica pra ela que chamar de “filho da puta” não é xingar. Busque o significado de SORORIDADE.

- “Respeita as mina”.
Se ela usa decote é porque gosta, se ela usa saia curta é porque quer, se ela não depila a perna é porque está plena de si, se ela não tira o batom vermelho é porque não vai abaixar a cabeça.
Encare uma mulher como humana e igual a você. Ela tem que trabalhar e educar o filho; ela tem que estudar e trabalhar até tarde; ela não tem tempo de pensar no ‘fiu-fiu’ que ouviu na esquina, mas sim pra agradecer o assento liberado no ônibus, porque a barriga de oito meses é pesada.

- Liberdade sobre o próprio corpo.
Se ela quer ser gay, se ela quer abortar, se ela quer ser mãe solteira, se ela quer casar e ter marido, o que você tem com isso?
Você tem com isso pelo menos se interar do mundo LGBTQ (vai lá googlar a sigla, vai).
Você tem com isso ser a favor da legalização do aborto.
(Ah meu deus! Ela está dizendo isto mesmo?)
Sim, porque você querendo ou não ele ACONTECE e mata mulheres o tempo todo, todo minuto. A legalização significa que haverá suporte às mulheres com gravidez indesejada, e não que sairão às ruas abortando. Muito pelo contrário.
Procure saber o que acontece nos países em que o aborto é permitido. Pára de achar que toda mulher que engravida tem um marido maravilhoso, uma família que apoia, liberdade financeira…
Não fale de coisas que você não sabe nem de um corpo que não te pertence.
Não venha militar dizendo sobre um karma que não será seu, meu amigo…

- Igualdade salarial.
Muito mais do que ter liberdade monetária, é poder livrar-se de violência doméstica. Pense fora da caixinha.
Leve em consideração que uma mulher negra, hoje, chega a ganhar quase metade do salário de um homem branco, e também de que a maioria da população em extrema pobreza é mulher.

- Conscientização e fim da violência contra a mulher
Eu não quero flor, não quero parabéns, não quero chocolate. Eu quero que você pare pra pensar no que É ser mulher.
Não é só NÃO PODER sair sozinha pela noite. Vamos mais pro fundo.
Vamos pra onde viajar com uma amiga é “viajar sozinha”, por não estar com um homem. É ser assassinada, e levar a culpa. É ser chamada de “vítima facilitadora”.
A violência doméstica atinge 4 entre cada 10 mulheres. Uma mulher é estuprada a cada 10 minutos, no Brasil.
65% das mulheres assassinadas, no país, o foram por parceiros ou ex-parceiros.
Sabe o que é isto? É um fantasma que acompanha cada ser feminino que caminha pela face da Terra.
Terra, esta, tão vasta, onde meninas ainda crianças são obrigadas a casar-se com homens muito mais velhos; onde jogar ácido no rosto é uma prática comum e “faz justiça”; onde o corpo é objetificado e pensado num nível inatingível.
Que lugar é este que vivemos? Posicionar-se é imprescindível…. Não seja conivente, meu amigo.

Neste dia 8, denuncie, tome atitude. Abra sua cabeça, abrace a mulher que você ama. Um “Gratidão”, cai melhor que um “Parabéns”.
Viva o berço da vida.

Fontes:

http://lugardemulher.com.br/o-que-queremos-neste-dia-da-mulher/

https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/03/05/Por-que-mulheres-%E2%80%9Cviajando-sozinhas%E2%80%9D-s%C3%A3o-um-problema-para-o-mundo

http://www.cnmcut.org.br/conteudo/cerca-de-12-milhoes-de-mulheres-superaram-extrema-pobreza

http://www.usp.br/espacoaberto/arquivo/2001/espaco06mar/editorias/variedades.htm

SOBRE O AUTOR

Com a loucura rock'n roll percorrendo as veias, é louca dos gatos e mergulha com facilidade nos universos políticos-sociais. Confunde coração com escudo. Gosta do pé no chão e a cabeça nas nuvens - sagitariana convicta.