Sobre ser um pedaço de carne #PrimeiroAssedio

“Porta de desembarque”. Lá estava eu, no primeiro dia do ano de 2016, exausta da viagem Açores-Lisboa e louca para chegar ao hostel que havia reservado por uma noite, já que não havia mais comboios e/ou autocarros (trens e/ou ônibus) para a cidade que vivo, Covilhã.

Uma mala de mão e minha bolsa, saí pelo desembarque, uma ida rápida a casa de banho (banheiro). Estava eu indo na direção a estação de metrô que é logo na porta de saída/entrada do aeroporto da Portela em Lisboa, e um pouco antes de chegar à porta me deparo com um grupo de rapazes, cerca de uns 6 ou 7, sem malas ou bolsas, pensei que estariam à espera de alguém.

Desci para o metrô, comprei meu bilhete, logo na estação.

Esperando passar os 2:13 min que faltavam, comecei a reparar nas pessoas a minha volta: a cerca de 20 metros de mim, no meu lado esquerdo, lá estavam aqueles gajos (rapazes) que já havia visto, sozinhos, para minha curiosidade. Quando dei meu primeiro passo para o vagão, eles correram e entraram junto comigo. Eu simplesmente saí e entrei em outro, este outro, porém, não impossibilitava nossa visão uns do outros. Comecei a estranhar a situação, olhava de vez enquanto por de baixo da barra de ferro que pertencia a “cabeceira” do banco da frente, e todas as vezes que olhava, eles estavam olhando para mim.

Distante do aeroporto, mas bem perto da estação de metrô, ficava o hostel, porém eu precisava trocar de linha para seguir viagem. Muitas pessoas saíram, e para minha surpresa somente eu e os rapazes continuávamos lá.

Desci, procurei a saída e o endereço que havia de ir – lerda que sou esqueci-me de anotar o endereço exato, peguei apenas o ponto de referência. E lá fui eu em busca de alguém que me indicasse o local – encontrei um casal simpático que na mesma hora abriu o Google Maps e mostrou onde eu deveria ir. Agradeci e fui-me. Foi só olhar a diante, exatamente na esquina em que eu deveria ir, e lá estavam os indivíduos; neste momento, eu juro, comecei a me assustar, mas pensava: “Nada de pânico, finge que não faz ideia do que está acontecendo e vai logo para esse maldito hostel”.

Dia seguinte, eu não queria ir cedo para estação ou rodoviária, meu namorado chegaria às 18h no aeroporto e queria arranjar uma ocupação para esperar até essa hora. Decidi que iria a Primark, do shopping Colombo, que por sinal estava em saldos (promoção) e eu nem sabia.

Lá estava eu novamente, na estação, coberta literalmente da cabeça aos pés, era um frio ameno – 11 graus – para quem está habituado à neve. E lá também estavam os malditos que há três meses me recuso a chamar de seres humanos.

Neste momento, consegui fixar um pouco melhor a aparência de cada um, que passaram a ser três: pareciam adolescentes com seus 20 anos, 18 a 20 e poucos anos, bem vestidos. Pensei comigo: “Isso é coisa da sua cabeça, relaxa, esquece”. Mas nesta mesma estação, à espera do mesmo vagão, haviam também dois seres que beiravam os 40 anos – observei uma vez pois pareciam rostos conhecidos de algum lugar, quando percebi que nunca os tinha visto na vida, desviei o olhar e comecei a fixar o chão.

O vagão chegou, sentei-me, e logo a minha frente estavam os seres de 40 e poucos anos. Sorte minha estar de chapéu, poderia observar sem que ninguém notasse para onde eu estava olhando, era como usar óculos de sol. Eles não tiravam os olhos de mim, assim como os outros gajos de 20 e poucos anos que se sentaram do lado oposto do vagão.

Três estações, e lá os dois de 40 e poucos anos saíram. Levantei um pouco a cabeça, aliviada de poder olhar para frente sem ficar intimidada – de nada adiantou, jogaram um beijo e deram um tchauzinho, e quando percebi que era para mim, e me senti despida, totalmente despida com aquela situação, violada posso dizer. Pensava: “Que nojo! Que nojo!! Meu deus, esteja comigo. ”

Senti-me despida, violada, desrespeitada. Em momento algum peguei no telefone que estava no bolso da frente do casaco de neve que portava, me sentia um tanto insegura para demonstrar qualquer segurança que fosse. Mas o pior, ainda estava por vir.

Saí da estação, e para minha surpresa era como o aeroporto,  dos túneis do metrô já entrava  praticamente dentro do shopping, e então fui passar o meu tempo.

16horas. Resolvi que seria o momento ideal para voltar, a tempo de passar no hostel para pegar a mala de mão e enfrentar novamente a estação até o aeroporto – estava ansiosa.

Contudo, antes mesmo de chegar à área em que se espera o metrô, esbarrei novamente naqueles de 20 e poucos anos – gelei, e pensava: “Está tudo bem, vai tranquila, vai com calma.”

No fundo queria o abraço de alguém, a segurança de ter alguém conhecido por perto, apesar de estar envolta a tanta gente na estação.

E da mesma forma que entrei no metro na estação do aeroporto, entrei nesse. Eles entraram, eu saí e entrei em outro vagão, que no fim não fez diferença nenhuma. Eles continuaram comigo até a penúltima parada.

Respirei aliviada, estava tudo bem. Na minha cabeça.

Eles apenas trocaram de vagão. Quando saí, com duas sacolas gigantes em mãos, me enfiei no meio das pessoas que lá estavam, e fui logo à procura da saída mais próxima. Já fora da área dos metrôs, quase na entrada, escuto atrás de mim, mas um pouco distante: “É ela que vai ser estuprada? Quem vai ser estuprada? Ela está com medo!!”.

Pensava que isso só podia ser coisa da minha cabeça, já estava paranoica com isso, precisava relaxar.  Quando olho para trás, e lá estavam eles, de olhos fixos em mim, andavam rápido, e não, não era coisa da minha cabeça, realmente estavam dizendo tudo aquilo. Até o momento em que resolvo correr. Pensei em agir como se não soubesse português ou como se não soubesse o que estava acontecendo, não sei se consegui, se foi inconsciente…, quando dei por mim já estava na saída, e sem ninguém a volta. Novamente respirei aliviada.

Uma vez lerda, sempre lerda. Desci na saída errada, precisava atravessar uma rua. E lá fui eu, atravessei, uma parada de autocarros (ônibus) a frente, continuei… quando, novamente, atrás do ponto, me deparo com eles. Passei em frente. Só conseguia olhar para o chão e parar o lado oposto, andava super-rápido, só queria chegar em segurança.

Percebi que estavam indo atrás de mim, continuei, entrei no hostel, respirei. E comecei a chorar, tudo havia se acumulado.

Os funcionários e alguns hóspedes tentaram me acalmar, contei o que estava acontecendo, disseram que em 7 sete anos de funcionamento nunca haviam presenciado coisa do tipo.

Alguns hóspedes saíram, e voltaram segundos depois. Pediram a confirmação da fisionomia dos tais, e disseram: “Estão aí à porta”. Eu não chorei, liguei imediatamente a polícia, que minutos depois lá estava. E os filhos da mãe, fugiram.

Disseram para eu tentar esquecer, pois lembrava e chorava muito, disseram para ter calma que isso nunca mais aconteceria. Sinceramente, nunca esquecerei.

Se te dizem para portar de tal maneira, ou para não vestir tal roupa, é com o objetivo de te proteger. Será?

Por experiência própria, eu digo que o que transparecemos importa, mas muito pouco, diante do que somos, mulheres.

Não adianta, somos sempre vistas como um pedaço de carne, de burca ou de biquíni, se isso vai mudar? Não sei, mas espero, espero que essa consciência machista mude. Depois disso não sei se sou feminista, ou qualquer coisa que se rotule. Só sei que machismo me repugna, me dá raiva, me enoja, me irrita.

E cá entre nós, homens que saem por aí fazendo um verdadeiro “raio x” do corpo de qualquer mulher que vê a frente, ou assobiando, gritando, chamando de “gostosa” ou do que for – isso definitivamente não são elogios, pelo menos para a maioria.

Merecemos respeito, como qualquer outro ser humano, e se vocês – homens ou mulheres – machistas em geral querem ser chamados também de seres humanos, por favor, hajam como tal.

E uma coisa digo: não levem minha situação em consideração para formar vossa opinião diante da cidade de Lisboa ou do país português, por favor. Isso aconteceu comigo; se aconteceu com mais alguém, eu não tenho ideia. E pela minha experiência de dois anos aqui vivendo, porém em cidade do interior, é um país seguro e ótimo para se viver, como disse, em cidade interiorana. Pouco conheço das maiores, mas já posso dizer, não só por essa situação, que Lisboa me aterroriza, é detestável.

SOBRE O AUTOR

Mineira, 20 e poucos anos. Vítima da crise dos 20 anos saiu de seu país natal para viver atrás da cultura e da literatura, de um novo horizonte. Acredita que um dia ainda será YouTuber. Discípula de Platão, nietzschiana de coração, escritora de alma e sarcástica de espírito.