Você acredita em final feliz?

contos-fadas

Você ainda acredita em contos de fadas? Se não acredita, devia. E eu vou explicar os motivos.

Explorando as profundezas da internet recentemente, caí num site com adaptações de contos de fadas no formato de graphic novel (em inglês). São três quadrinistas que decidiram adaptar histórias menos famosas coletadas pelos irmãos Grimm. Nem preciso dizer que me perdi nas ilustrações, que são belíssimas, e nas histórias. Quando me vi de volta à reali`dade sem mágica ou finais felizes (embora nem todas as histórias terminem bem, como prova o conto curto “O pássaro, o Rato e a Salsicha”) comecei a me perguntar o que ainda me fascina no mundo do faz de conta. Sempre gostei dos contos, mas não tanto das versões Disney; ávida buscadora da verdade ou criança macabra, você decide, mas sempre gostei mais das versões originais. Até com as mortes e expulsões, o sangue e o sofrimento, os contos de fadas do jeito que foram registrados há muito tempo tinham um apelo indescritível para mim. Ainda têm. Mas por que eu e muita gente ainda queremos acreditar neles?

Será pela justiça inapagável, que tarda, mas nunca falha? Em contos de fadas, o mal é punido e o bem recompensado – exatamente como nossas mais recônditas ilusões gostariam de pintar o mundo real. As mentiras e falcatruas armadas por pessoas mal-intencionadas são sempre desfeitas, e as inocentes mentiras contadas por pessoas “de bem”, geralmente camponeses, são as únicas que por vezes acabam em recompensa, como se pagando-os pelo que a sociedade, a pobreza, etc. lhes causou.

Talvez elas me atraiam pelo imenso poder de transformação que a mágica proporciona. Basta um feitiço, maldição ou encantamento e homem vira sapo, urso, cavalo, mulher vira rosa, laranja, pássaro, todos viram tudo e como se fosse simples, desviram depois. De certa forma, os contos de fadas ensinam que nada é imutável, e que todas as dores passarão. Ao mesmo tempo, que uma mudança, ainda que à primeira vista indesejável ou asquerosa, pode trazer aprendizado que tornará a pessoa melhor quando a transformação acabar. Nos contos ninguém está verdadeiramente aprisionado à forma atual – o futuro pode envolver transformações tão drásticas que nem mesmo podem ser previstas.

Desconfio que meu amor por estas histórias tenha pouco a ver com príncipes encantados. Embora sejam importantes na hora do final feliz, eles não fazem tanta diferença durante a história – são muitas vezes bobos, orgulhosos, ou simplesmente desinteressantes. Os camponeses espertos, pelo contrário, sempre me encantaram. As maneiras de alcançar seus objetivos variam – alguns tem ajuda de animais mágicos (como em O Gato de Botas ou Dois Irmãos), outros usam apenas a malandragem; mas enganando e fazendo mágica, eles desafiam a sociedade aristocrática (que não tem mobilidade social) e mudam de classe, tornando-se ricos e bem-sucedidos. Contos de fadas desafiam a ordem social, e por isso trazem esperança. Ainda que a sociedade pareça imutável ou o amor impossível, nos contos tudo funciona.

Os contos de fadas, assim, se tornam arautos da mudança, da justiça, da possibilidade. Se considerarmos a época em que eram contados, eles eram quase contos de revolução: desafiar a realeza, casamentos entre classes, usar mágica (condenada pela religião) e se dar bem? Eles trazem consigo esperanças que vão contra o mundo “real”, mas de encontro ao mundo ideal, que criamos coletivamente em nosso inconsciente. E talvez a razão pela qual eu ainda acredite neles é justamente o fato de, com as vozes das minorias sendo ouvidas, mudanças sociais acontecendo em velocidade vertiginosa, massas exigindo justiça pelo poder de comunicação digital e evoluções médicas que quase se assemelham à magica, nós estarmos vivendo um momento da história que permite, mais do que nunca, esperar que essas histórias se tornem reais. E que seus finais sejam felizes.

Revisado por Juliana Skalski

SOBRE O AUTOR

Temporariamente na Armênia e permanente amante do mundo, viaja prestando atenção em coisas pequenas e se apaixonando pelo menos uma vez por mês. Não gosta de binários - como o de gênero - e ama gente.