Não seja a garota da capa

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As transformações dessas famosas são simplesmente incríveis, parece que são outras pessoas. Eu quero uma mudança de$$a$!

Li a manchete sensacionalista em uma “publicação sugerida” no meu facebook e parei. Cliquei e dei de cara com uma compilação de fotos de atrizes e cantoras antes e depois da fama. Antes, mulheres normais, rostos comuns, quilos a mais ou a menos. Depois, os rostos e corpos das capas de revistas.

Isto não é sobre coisas como o penteado e o batom que a gente usa porque gosta, como quando se arruma para sair.

Dias antes eu mesma e alguns amigos brincamos: “Não existe mulher feia, existe mulher pobre”. Lamentavelmente, dentro do que nossa sociedade classifica como beleza, a piada ruim é mais verdade do que deveria. Quase ninguém se enquadra naturalmente nos padrões estéticos, logo para ficar mais perto de alcançá-los é preciso pagar por eles.  Acima do peso? Academia e dieta. Cabelo “ruim”? (céus, como odeio essa expressão!) Progressiva, definitiva, mega hair. Seios pequenos? Silicone. Nariz torto? Cirurgia plástica. Rugas, celulite, estrias, espinhas? Para o qualquer “defeito” existe um tratamento, uma nova tecnologia, uma solução. Tudo ao seu alcance mediante pagamento.

E aí sim, só então você será uma mulher bonita, sensual, desejável, passível de ser amada. Com rosto e corpo de garota da capa.

Ou um homem charmoso, atraente e viril, como o cara da propaganda de desodorante.

Mas, e o meu rosto? As marcas que se formaram a partir das minhas risadas, das minhas lágrimas, o formato do nariz, dos olhos que herdei da minha família, as pintinhas do meu rosto com que minha mãe brincava quando eu era pequena (que apagaram com photoshop no convite da formatura)? E o meu corpo? As cicatrizes, as gordurinhas que ganhei em momentos felizes, as estrias, as marcas que contam a minha história?

Nossos corpos também são parte de quem somos. Talvez não sejam semelhantes aos padrões de beleza, mas são os registros concretos das nossas histórias, a pequena parte material de um “eu” constituído em sua maior parte pelo universo interior. A fachada de uma casa muito mais complexa que as linhas perfeitas dos modelos de beleza.

Porém, o que nos insistem em apontar é que nada disso importa, nada disso pode ser considerado belo, nada disso significa nada para ninguém.  O que importa é ser igual à garota da capa. Mesmo que isso signifique desprezar seu próprio corpo. Mesmo que para isso seja preciso mudar completamente, até “parecer outra pessoa”. O importante é seguir o padrão, todos iguais, no mesmo molde, como frutos de uma linha de produção…

Revisado por Jay Araújo

SOBRE O AUTOR

Juliana Skalski, 25 anos, paranaense do interior, é médica veterinária formada pela UFPR e cursa mestrado em Ciências Veterinárias na mesma instituição. Gosta do que faz, mas gosta ainda mais de ler. Aliás, gosta de tantas coisas que nem sabe se está no caminho certo. Talvez um dia largue tudo para cursar História. Ou tocar piano. Ou escrever.