Cabelo: entre discursos e modelos

maxresdefault1

Post compartilhado com o Literatortura

Na última semana duas polêmicas surgiram relacionadas ao tema cabelo. De um lado, o cantor Bell, ex-Chiclete com Banana, defendendo os compositores de sua nova música de trabalho “Cabelo de chapinha” (Felipe Escandurras, Fagner e Gileno) e a própria composição. Do outro lado, temos Maísa, aquela do SBT, no alto dos seus treze anos, estabelecendo reflexões maduras e contemporâneas a respeito da sua condição de menina/mulher a partir do clipe de sua música de trabalho “Cabelo”.

No primeiro caso, o cantor ressaltou não ver os versos da composição como uma manifestação de racismo. Em postagem realizada pelo músico em sua página do facebook, ele afirma que “É uma canção na qual o compositor se inspirou em um personagem que adora sua parceira e lhe pede, com carinho, que se arrume do jeito que ele gosta. Muito boa essa forma gentil que o compositor encontrou para enaltecer sua amada e que deveríamos aplaudir, pois essa é a mensagem da música: gentileza e amor.”. a música traz inscrita em seus versos a seguinte sentença:

 Ô mainha, mas eu só gosto do cabelo de chapinha, mainha Ô tá liso, tá lisinho. Tá liso, tá lisinho

A canção, que reflete a não diversidade ao enaltecer um modelo de cabelo socialmente hegemônico, foi motivo de protesto, não sem direito, pelos movimentos culturais/sociais. Em resposta, o cantor e os compositores recuaram da posição inicial*, alterando a letra da música para uma versão que possibilita outras formas de manifestação capilar:

Ô, mainha, Eu também gosto do cabelo de chapinha, mainha Tá lindo, tá lindinho, tá lindo, tá lindinho

A mudança, que parece irrisória, altera de forma significativa o discurso. Este sai de uma condição que sujeita a mulher a uma única forma de beleza em “eu só gosto do cabelo de chapinha”, para uma possibilidade de gostar “também” do cabelo de chapinha**.

Em outro momento, mas ainda assim não longe das polêmicas, surge Maísa. Após divulgar o clipe de sua nova música, a menina lançou uma nota em sua página do facebook em resposta aos comentários feitos sobre seu trabalho, que exigiam dela mais sensualidade. Em resposta a esses sujeitos, Maísa rebate: “BOM, acontece que eu tenho 13 anos, não sou adulta, ainda não sou mulher e nem quero ser uma com essa idade! Sou uma pré-adolescente e me comporto como menina, pois conservo minha alma de criança sim, e com maturidade venho dizer que o meu trabalho é para AS CRIANÇAS (para todos).”.

A reflexão estabelecida pela cantora quanto a sua condição de menina/mulher, por si só já renderia inúmeras discussões, mas não é sobre ela que se falará neste momento. A não ser, claro, para considerar a posição ocupada por ela e o discurso que ela possibilita estabelecer a partir de sua fala em referencia ao clipe e de sua música.

Considerando a temática abordada no texto, que busca comparar o modo como um mesmo elemento aparece em duas composições atuais, envoltas em polêmicas (ainda que a segunda não se relacione especificamente aos cabelos) utilizaremos agora da letra da música de Maísa***. O propósito de tal reflexão é perceber como discursos paralelos atuam na manutenção de uma condição ou na transformação de uma concepção social acerca do fenômeno “cabelo”, bem como perceber como há, no caso da primeira música, uma intervenção que nega o discurso, e na segunda, uma ação que reafirma um discurso.

Na letra da música, a cantora Maísa brinca com as diversas possibilidades existentes para os cabelos. Ainda que de forma limitada, já que não seria possível elencar todas as formas possíveis, a letra da canção ressalta que o importante é que a pessoa goste do seu cabelo da forma que ele seja:

A menina todo dia, para e fica horas no espelho Prende e solta, passa fita, mexe que remexe no cabelo Se tem lacinhos, cachinhos, é curtinho, o que importa é você gostar

Ainda a favor da diversidade, e pregando um discurso de maior igualdade, a menina aponta que o cabelo não é um critério do gênero feminino:

O menino também gosta, mexe no topete o tempo inteiro Cê é tipo desencanado, finge que não liga pro cabelo Se é enrolado, cortado, alisado, o que importa é você gostar

Deixando de lado as composições enquanto obra artística, porque claramente se afastam de qualquer propósito de arte – há quem discorde deste meu posicionamento. Mas, compreendendo que têm forte apelo popular em ambos os casos, é interessante notar a reflexão que se faz acerca do cabelo e como o público é atingido por tal questão.

O que se observa em conclusão?

Observa-se que o discurso que perpassa o imaginário de grande parte das pessoas não compreende como ofensiva a estigmatização através de um modo único de ser, de ressaltar uma beleza que nega tantas outras e que não compreende o histórico social como marca na linguagem. Observa-se que os modos como as relações têm se estabelecido têm permitido o enfrentamento de discursos preconceituosos ou discursos que não reflitam as condições de diversidade em que vivemos. E que este mesmo poder que foi durante tanto tempo retirado dos sujeitos, tem sido reestabelecido. Acima de tudo, compreende-se que há uma voz que se levanta e barra essas construções legitimadas por um passado que se reconstrói a cada dia. Uma voz que faz com que o primeiro discurso tenha que ressignificar a composição da sua música e rever seu modo de pensamento e execução, ao mesmo tempo em que permite ao segundo legitimá-lo enquanto possibilidade. Observa-se também que uma nova geração se ergue e atua, em fala e ação, em prol deste novo movimento social, deste novo modo de concepção social, que prega a diversidade e a igualdade das relações. A mudança no discurso, ainda que em um pequeno recorte, mostra que as mudanças vêm.

Entre duas gerações, uma conclusão: Há salvação.

* Você pode acompanhar a história que envolve a música do cantor, em maiores detalhes, clicando aqui.

** De modo bem sincero, considero que a composição continua inscrita na péssima qualidade que certos músicos baianos têm apresentado, e a explicação dada à composição como manifestação de não racismo explora apenas outra faceta social, o machismo. Acredito que trazer esta reflexão a tona é dar legitimidade e espaço de divulgação a uma composição que deveria cair no esquecimento, mas, ao mesmo tempo, considero que a comparação entre modos distintos de execução social do discurso permitem abrir caminhos e olhares pertinentes às questões de gênero, raça, e etc, razão pela qual ela aparece aqui.

*** É importante destacar aqui que são públicos diversos alcançados por cada música. Para o primeiro caso, o público é mais adulto, sendo possível pensar que certas questões já estão mais naturalizadas, enquanto que no segundo, há um processo de formação dos sujeitos. Neste sentido, é possível acreditar que os sujeitos que tem contato com a segunda experiência crescem assumindo uma outra posição do discurso, beneficiada e possibilitada pela posição adotada por Maísa.

**** A imagem utilizada na capa desta matéria foi retirada a partir deste vídeo, em que a Leyde Oliveira ensina a desenhar diferentes tipos de cabelo.

Revisado por Juliana Skalski.

SOBRE O AUTOR

"Nada sei desse mar, nado sem saber, de seus peixes, suas perdas, de seu não respirar..." Como diz a canção de Kid Abelha, nada sei desta perda, mas na inconstância deste não saber, tento edificar-me através das palavras. Sei que é um exercício de consciência, e antes de tudo, de sentimento. Enquanto caminho entre as palavras, descubro a razão de ser humano. Gostou do que leu? Siga-me no facebook (Rafhael Peixoto), na página do meu blog no facebook (Um olhar sobre o tudo e o nada) ou no instagram (rafhael_peixoto).