Doces mulheres a quem admirei

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Texto compartilhado com o Literatortura

Preciso dizer o que estou sentindo, pra você, para os outros, por aqui ou não. Resolvi me organizar. Na verdade, eu nem sei. Sabe quando a gente passa o tempo todo mentindo pra si mesma? E uma hora a gente se perde, e nem entende mais o que pensa, o que quer, e acha que não pode mais ser um monte de coisas. Eu não sabia desenrolar esse incômodo que vivia aqui dentro, me desculpe. Muitas vezes eu devo ter jogado a culpa em você, mas a gente compartilhava da mesma raiva, e, talvez, talvez pra mim ou pra você, do mesmo amor. A gente hoje sente a mesma falta, e eu sei que você esperou que a gente juntasse essa história, que, coincidentemente, a vida nos preparou. Eu espero, querida, de verdade. Ainda sinto aquele medo faminto de ser rejeitada e enganada por aquela figura que me fez mais falta. Mas eu compreendi, compreendi sim. Entendi que nossa presença nesse mundo vai ser sempre visto com um pouquinho de desdém, e que você foi forte, muito forte e ainda é, mas eu sempre achei isso, entenda; pra mim, independente de você reforçar o quanto você é forte – e eu sei que você passa quase o tempo todo tentando isso – pra mim, sempre foi assim. Eu posso ter sentido vontade, muitas vezes, de te falar coisas horríveis – mas eu sempre soube que aquilo não era real, e que eu não queria falar nada ruim pra você, não, não era pra você – era pra ele, praquele outro, praqueles outros todos. Olhei tudo com os olhos de uma criança bem inocente, criança calada, que não sabia mais viver nada daquilo. Acho que você merecia coisa melhor. Desculpa, acho sim. Eu podia ter feito algo pra melhorar, sim, mas não sei se queria que você se sentisse sufocada que nem eu, ou se cansasse de tudo e fosse embora também. Eles todos me encheram de histórias, tantas, que não sei mais de nenhuma verdade. Sei que eu não fui feliz, nem ela, e tive que vê-la tentando tanto deixar sua filhinha feliz, ela tinha aquele sorriso lindo – você também tem, é sério. Eu vi a cumplicidade que vocês duas tiveram. Você a tratou tão bem, mesmo ela tendo entrado em casa aquela manhã, quando eu estava dormindo – do nada! Eu ouvi alguém abrir a porta do meu quarto, e era uma presença tão boa. Eu não questionei. Eu nunca questiono quando alguém entra no quarto e estou dormindo, nada aconteceu, e deixei quieto. Foi estranho. E quando levantei e desci as escadas, ela estava ali sentadinha no sofá, e eu fiquei tão brava. Mais assustada do que brava, não queria que tirassem a liberdade dela de novo! Ela era esperta, sim, ela era demais. Ela tinha a coragem que ninguém tem. (Não vou me estender falando dela, porque meus olhos já marejaram.)

Eu não sei, não sei mais nada disso tudo. Hoje eu me sinto muito impessoal em relação a ele. Sinto que fui usada, e principalmente enganada. Entendo a razão de ter me sentido assim agora, só agora. Achei que o mundo fosse assim, e é, mas não precisa ser. Porque é muita falta de caráter usar o amor de alguém, de uma criança, para sair ileso das próprias responsabilidades. Eu sei que a culpa não é dele, mas penso – é ele realmente uma pessoa boa, ou só dono de uma personalidade dócil? Alguém bom não pode causar tanta dor, ou quem causou fui eu? Eu não vou julgá-lo, como tantos o fizeram pra mim, porque isso é tão mesquinho quanto tudo o que ele fez. E nem tenho porquê julgar você. Já me fizeram muito isso também, esquecendo que vocês são só seres humanos. Ele é só mais um desses querendo nos prender, nos amar. Querendo nos diminuir, o tempo todo, com essa naturalidade desprezível… Ainda não sei se sou culpada, mas sei que isso tudo nunca vai fazer sentido. E que vocês três vão continuar a me perturbar por tanto tempo mais… Eu apenas sinto falta, e espero que eu não tenha motivos para me sentir ruim assim – mas a gente sempre vai ter, não é?

Revisado por Juliana Skalski

SOBRE O AUTOR

Estuda Letras com habilitação em Língua Francesa na Universidade Federal de São Paulo. Tem 19 anos e uma bagagem de sonhos despedaçados. Não consegue viver sem a arte e sem a Filosofia. Está tentando sair do limbo. "Sem a música, a vida seria um erro".