As vantagens de ser loira e burra

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Em pleno dia de #meuamigosecreto, hashtag utilizada nas redes sociais para que as mulheres – ou homens – denunciem o lamentável machismo nosso de cada dia, estava zapeando pelos canais na TV a cabo e topei com um tal de Fritada, no Multishow. Basicamente, se trata de uma imitação de stand-up no qual os convidados e integrantes do show fazem piadas entre si e majoritariamente sobre um convidado especial, que ganha um troféu de frigideira no final e têm direito à resposta, ou seja, mais piadas, sobre os que o “fritaram”. A convidada em questão – sentada em uma cadeira que me lembrou bastante aquelas cadeiras elétricas de filmes americanos – era uma moça de nome Babi Rossi. Poupando o leitor de uma rápida pesquisa no Google e o risco de uma dispersão do texto em questão, explico: ela é daquele tipo visto como loira gostosa e burra, já foi “panicat” e namorou o filho do bilionário Eike Batista.

As piadas sobre ela, obviamente, foram sobre o fato de ela ser loira e, por consequência, burra perante aos olhos da sociedade, além de, segundo os comediantes, ela ser “puta” e gostar de homens ricos. Obviamente são piadas machistas e etc. etc. etc. Mas isso todo mundo já sabe, e para ser honesta, não sou exatamente daquelas a favor da ditadura do politicamente correto. Enfim, esse não é o meu ponto aqui.

O fato foi que quando a dita loira burra teve sua chance de resposta, se saiu melhor do que outros dos ditos comediantes que falaram antes dela. Aparentemente, algumas respostas haviam sido escritas na hora. No meu entendimento, formular uma piada minimamente engraçada não é tarefa de pessoa burra. Aliás, creio que demande até uma pequena dose de inteligência. Ora, ora, amigos, talvez a loira burra não seja tão burra quanto pensávamos.

Chegamos aqui a um ponto interessante. Grande parte das mulheres que tem esse estereótipo de loira burra e gostosa não é burra. E muitas vezes, nem mesmo loiras. Já pararam para pensar que talvez elas adotem voluntariamente essa cor de cabelo – já em alta tanto nos tempos romanos e ainda mais desde Marylin Monroe – e a postura de burra para serem, de alguma forma, aceitas? Para mulheres que cresceram em uma sociedade machista, que cobra da mulher mais beleza do que inteligência, estar dentro desse perfil pode parecer a única solução para se encaixar. Desconstruir nem sempre é fácil e, sobretudo, nem sempre evidente.

Fica o lembrete: meninas e mulheres, famosas ou anônimas, loiras, ruivas, morenas ou de cabelos coloridos, se vocês QUISEREM, hoje em dia existem tantas possibilidades de comportamento quanto tons para se pintar ao cabelo. É só escolher, as opções, estão aí.

Revisado por Jay de Araújo

SOBRE O AUTOR

Aline Pascholati é artista plástica, escritora, tradutora e historiadora da arte pela Université Paris 1 – Panthéon-Sorbonne. Autora dos livros Paris com pouco dinheiro e FRANCE – C’est magnifique! Atualmente está trabalhando em seu terceiro livro. Louca por aprender novas línguas, viajar e descobrir jovens estilistas talentosos nas semanas de moda pelo mundo a fora. Curta Aline Pascholati's Art: https://www.facebook.com/alinepascholatisart