Meu abusador não é um monstro

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Aconteceu quando eu tinha oito anos. Me perdi da minha mãe no mercado e ele me encontrou. Ele apalpou minha vagina, pressionou seu corpo contra as minhas costas e tentou me levar pela mão. Levei muitos anos até criar coragem para contar o que houve para conhecidos. Desde então, preciso escutar a mesma resposta: “nossa, você foi vítima de um monstro.”

Mas meu abusador não é um monstro. Meu abusador possui nome, endereço e carteira de identidade, exatamente como eu e você. Mesmo assim, as pessoas preferem dizer que ele não é humano.

 Preste atenção nas notícias envolvendo abuso de menores. Das centenas de comentários na reportagem sobre a menina que foi abusada pelo padrasto, o que mais faz sucesso é aquele em que alguém afirma que “um homem de verdade não faz uma coisa dessas”.

Não faz?

Da próxima vez em que você se deparar com um comentário desses, faça um favor a todas as vítimas:

Não retire a humanidade dos abusadores.

Enquanto dissermos que estupro é coisa de monstro, crianças não conseguirão denunciar seus agressores. Afinal, aquele tio que passa a mão na sobrinha é tão querido com todos! Na cabeça da menina de quatro anos, ele não pode ser um monstro. O paizão que faz churrasco no final de semana e espanca os filhos ao chegar em casa também não deve ser um monstro, todos gostam dele!

Eles não possuem garras afiadas e nem olhos assustadores. Eles não têm dentes pontiagudos e nem escamas. Abusadores jogam bola com os vizinhos no final de semana. Abusadores também são os queridões da turma. Abusadores frequentam o culto aos domingos. Abusadores são tios, primos, pais, padrastos. São médicos, advogados, taxistas, servidores públicos.

Abusadores estão por todo lugar, e talvez estejam mais próximos do que você imagina.

Resista à tentação de comentar que alguém que molesta uma criança é um monstro. Crianças não possuem a mesma abstração que você, e podem nunca vir a identificar agressões de um homem ou mulher, caso você afirme que quem maltrata um inocente não é um ser humano.

Monstros vão embora com cobertores e abraços.

Molestadores, não.

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