As magníficas de 24 e a Revolução Feminista nos mangás

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Texto compartilhado com o Literatortura

Na década de 1960, a indústria dos mangás passou por uma grande transformação, não só nos aspectos técnicos, mas sim pela participação de mangakás (quadrinistas) mulheres que começaram a adentrar o mercado de quadrinhos japoneses. Desde do início do surgimento do mangá moderno no Pós-Segunda Guerra, a produção de mangá era feita exclusivamente por homens. Mesmo tendo histórias voltadas para o público feminino, com a contribuição do Deus do mangá (Manga no Kamisama), com a criação do cultuado A princesa e o Cavaleiro (Ribon no Kishi), em 1953, que iniciou os debates de gênero nos mangás, como também, a criação da Margaret, em 1963, que seria uma das primeiras revistas dedicadas ao público feminino no segmento de quadrinhos, a falta de representação das mulheres nos quadrinhos era sentida pelo público leitor feminino.

Mas, isso iria modificar em 1964, quando a jovem Machiko Satonaka, leitora voraz de mangás shojo sentiu a necessidade de criar sua própria história, e Pia no Shôzo (“Retrato de Pia”) venceu o concurso de talentos da revista Ribon (“Fita”). Esse foi o grande marco para uma geração de mulheres trabalhadoras, que passaram a dominar o segmento de mangás shojo. Em 2006, as revistas de mangá shojo empregavam cerca de 400 mangakás mulheres, sendo uma das poucas profissões em que a mulher recebe mais que o homem (GRAVETT, 2006, p. 78).

Sobre as temáticas, as mangakás femininas abordam desde questões de foro mais íntimo feminino (puberdade, envelhecimento, gravidez, aborto, casamento, divórcio, etc.), até questões mais gerais (mercado de trabalho, política, economia, saúde, cultura, etc.). As mangakás, em geral, têm uma independência na produção de suas obras, contanto que respeitem a faixa etária da revista. Porém, alguns leitores podem se assustar sobre essa independência criativa que as mangakás, e as próprias leitoras, têm ao produzirem/lerem histórias que prezam por uma liberdade feminina. Essa visão estereotipada sobre as mulheres japonesas serem submissas a um forte sistema patriarcal foi reforçada pelas reproduções de cortesãs e gueixas, do século XIX, que se deu no Ocidente em projeções como O Mikado, de Gilbert e Sullivan, e Madame Butterfly, de Puccini.

Não estou afirmando que o Japão não seja um país conservador e que tenha um sistema patriarcal presente nas relações de gênero. Contudo, essa visão romantizada que o Ocidente faz da mulher japonesa submissa também está bem longe de ser real. Um dos principais pontos são os casamentos e o divórcio, se compararmos com a realidade brasileira o divórcio foi introduzido na legislação nacional após a Emenda Constitucional n.9 de 28 de junho de 1977, dando origem à comumente denominada Lei do Divórcio, Lei n.6.515, de 26 de dezembro de 1977. Já o divórcio no Japão é conhecido desde os tempos antigos; bastava o marido enviar uma carta (mikudarihan) à família da mulher que o divórcio era consentido. O divórcio consensual surgiu na Era Meiji (1867-1902) que era realizado por uma notificação ao Registro de Família, modalidade de divórcio que ainda se encontra regulada pelo Código Civil japonês, além de enumerar as hipóteses em que a mulher também podia solicitar o divórcio (abandono do marido, agressão física à mulher e que faltasse aos deveres do casamento). (TANAKA, 2008, p. 127).

Através desse exemplo podemos perceber que os direitos femininos no Japão estavam muito além da nossa própria realidade. Voltando à questão dos mangás produzidos por mulheres, terei que destacar o papel significado da Machiko Hasegawa (1920-1992) idealizadora da obra mais extensa, sendo publicado em 1946 e exibido até hoje, Sazae-san. Essa tira cômica diária de quatro quadros verticais (yonkoma) retratava a história da protagonista, Sazae-san, uma mulher que era alta e graciosa, que após o casamento, transformou-se numa dona de casa típica, porém alegre, que cuidava da casa e da família. Essa história quase autobiográfica da Hasegawa mostra a força silenciosa da mulher japonesa. Pela sua contribuição à arte japonesa, em 1985, em Setagaya, Tóquio, foi criado o Hasegawa Machiko Bijutsukan (“Museu de Arte Machiko Hasegawa).

Essa revolução feminina nos mangás na década de 1960 modificou totalmente a visão das personagens femininas de mangá. Elas transformaram as meninas japonesas comuns em super-heroínas (Mahô Shojo) que combatiam o mal através de seus próprios poderes. Mas foi na década de 1970 que as mulheres estavam tornando maioria entre os artistas que trabalhavam nos shojos. Cinco notáveis mangakás destacam-se nesse cenário: Moto Hagio (Poe no Ichizoku, Thomas no Shinzou e Zankokuna Kami ga Shihai Suru), Riyoko Ikeda (Berusaiyu no Bara e Oniisama E), Yumiko Oshima (Mimoza-yakata de Tsumaete e Gou Gou Datte Neko de aru), Keiko Takemiya (Kaze to Ki no Uta e To Terra..) e Riyoko Yamagishi (Hi Izuru Tokoro no Tenshi e Terpsichora). Seus admiradores as chamavam de “As magníficas de 24”, pelo ano em que a maioria delas nasceu (24 da Era Showa, ou 1949). Todas as magníficas estrearam no mundo dos mangás shojo por volta dos 20 anos, depois de crescerem lendo o trabalho do Osamu Tezuka.

Com relação à técnica, essa geração de mulheres mangakás de 1970 libertou os quadros dos seus retângulos uniformes e das linhas de quadrinhos. Elas davam aos quadros a forma e a configuração que melhor adaptassem às emoções que queriam evocar. Elas suavizavam as bordas retas que delineavam os quadros, algumas vezes quebrando-as, dissolvendo-as ou removendo-as completamente. Dessa forma, tempo e narrativa não estavam mais encaixotados, e as narrativas podiam passear por sonhos e memórias. Os personagens também sofreram modificações; com essa liberdade dos quadros, as mangakás podiam exibir a linguagem corporal e vestuário de seus personagens tornando-os mais vivos e livres. (GRAVETT, 2006, p. 83).

As criadoras de mangás deixavam o fundo da página vazio, mas decoravam a área em torno da cabeça dos personagens com uma abundância de efeitos expressionistas e texturas: raios de choque, chamas de raiva, cinzas de desespero, pedras rolando de angústia, faísca e brilhos de afeição, tempestades de agitação. Seria uma forma de ver os sentimentos dos personagens através desses recursos.

As magnificas de 24, juntamente com várias outras mangakás mulheres, contribuíram e elevaram a produção de mangás, principalmente dos shojos, ao abordarem temáticas do universo feminino, introduzindo novas técnicas e trazendo personagens femininas fortes e independentes. Como de costume em meus textos, essa é uma pequena contribuição para debater sobre a presença feminina nos quadrinhos e principalmente de mulheres quadrinistas, sendo o Japão revolucionário por dar espaço e credibilidade ao trabalho dessas mulheres.

Referências:

GRAVETT, Paul. Mangá. Como o Japão Reinventou os Quadrinhos. São Paulo: Conrad, 2006.

TANAKA, Aurea Christine. Divórcio dos brasileiros no Japão. P. 125-136. In: HASHIMOTO, Francisco; TANNO, Janete Leiko; OKAMOTO, Monica Setuyo (Orgs.). Cem anos da imigração japonesa: História, memória e arte. São Paulo: UNESP, 2008.

Revisado por: Juliana Skalski

SOBRE O AUTOR

Fred Pedrosa, professor de História e Mestrando em História Social da Cultura Regional pela UFRPE. Valorizo a cultura nordestina, mas também sou aficionado pela cultura pop nipônica e sul-coreana. Sou cinéfilo, mas prefiro os blockbuster do que o cinema alternativo.