Chapeuzinho e a cultura do estupro: pelo direito à capa vermelha

chapeuzinho

Post compartilhado com o Literatortura

Um dos contos infantis conhecidos por todo mundo é o de Chapeuzinho Vermelho. A história de uma menina da capa vermelha que vai visitar a avó doente, é enganada por um Lobo Mau e, no fim, é salva por um caçador. Certo?

Errado.

O que pouca gente sabe é que Chapeuzinho Vermelho, como muitos outros contos de fadas aparentemente “inocentes”, tem uma versão original extremamente macabra e violenta. Já tivemos um post no Literatortura expondo essas origens, mas o enfoque que dou aqui a Chapeuzinho Vermelho é um tanto diferente. Isso porque, a meu ver, essa é uma história sobre culpabilização da vítima. Vejamos:

Numa primeira versão de Chapeuzinho, transcrita o mais fielmente possível da tradição oral camponesa, o lobo mata a avó da menina, cortando sua carne em fatias e despejando seu sangue numa garrafa. Quando a menina (que, nessa história, não vestia chapeuzinho nenhum) chega à casa da avó, o lobo disfarçado lhe oferece a carne e o sangue (dizendo se tratar de vinho), que são consumidos sem maiores delongas. Até aqui temos o elemento do canibalismo e o consumo de bebidas alcoólicas por crianças, sendo que este último não deveria ser incomum nos séculos XVII e XVIII. No entanto, logo depois, temos a seguinte passagem:

“Então, o lobo disse:

– Tire a roupa e deite-se na cama comigo.

– Onde ponho meu avental?

– Jogue no fogo. Você não vai precisar mais dele.

Para cada peça de roupa – corpete, saia, anágua e meias – a menina fazia a mesma pergunta. E, a cada vez, o lobo respondia:

– Jogue no fogo. Você não vai precisar mais dela.”

Aqui, por mais que seja difícil para a nossa sociedade moderna, é importante termos em mente que não existia um ideal de infância para a época – o que hoje se configura claramente como pedofilia, antigamente não o era. Inclusive, em algumas versões derivadas desta, Chapeuzinho chega a fazer um strip-tease para o lobo. O forte teor sexual do conto é continuado, ainda, por um final totalmente ambíguo: “E ele a devorou.”

Ao publicar a primeira adaptação literária de Chapeuzinho Vermelho em 1697, Charles Perrault procurou seguir com a tendência de “suavizar” as histórias para o gosto da burguesia – o principal comprador de livros, no século XVII. Com isso, eliminou alguns dos elementos grotescos da história original a fim de reescrever uma história moralmente edificante, que passasse uma espécie de ensinamento às crianças. Aqui, a culpabilização começa a se fazer presente – a protagonista da história é prontamente descrita como uma menina que todos achavam muito bonita, conhecida na aldeia por todos. Entram em cena o capuz vermelho e a ingenuidade infantil:

“Quando atravessava o bosque, ela encontrou compadre Lobo (…). O Lobo perguntou aonde ela ia. A pobrezinha, que não sabia como é perigoso parar para escutar um Lobo, disse para ele:

– Eu vou ver a minha avó e levar para ela uma torta e um potezinho de manteiga que minha mãe está mandando.”

Notem que, nessa versão, fica evidente o que a tradição oral deixava ambíguo: o Lobo pode muito bem ser um homem de verdade, um mr. Wolf, ao invés de um animal antropomorfo. A história termina da mesma forma, com o devoramento tanto da avó como da Chapeuzinho. É nesse momento que aparece a “moral da história”, elemento característico da obra de Perrault:

“MORAL

Vimos que os jovens, principalmente as moças, lindas, elegantes e educadas, fazem muito mal em escutar qualquer tipo de gente, assim, não será de se estranhar que, por isso, o lobo as devore. Eu digo o lobo porque todos os lobos não são do mesmo tipo. Existe um que é manhoso, macio, sem fel, sem furor. Fazendo-se de íntimo, gentil e adulador, persegue as jovens moças até em suas casas e seus aposentos. Atenção, porém! Às que não sabem que esses lobos melosos, de todos, são os mais perigosos.”

Ou seja: basicamente, Perrault aponta a existência de estupradores disfarçados de cavalheiros, nada de novo por aí – inclusive, vemos a mesmíssima coisa na nossa realidade atual. Mas ele também implica que a culpa de Chapeuzinho ter sido devorada foi dela mesma! Ele (que, deve-se lembrar, reproduz um discurso que condizia com a sociedade burguesa da época) sempre reforça a beleza da menina, a condena por ter escutado a conversa do Lobo. Há, ainda, algumas análises que afirmam que o fato da capa ser vermelha é um “agravante” da situação.

(Alguma semelhança com aquele babaca na mesa do bar que fala que “mulher de batom vermelho tá pedindo”? Bem, agora você já pode falar que ele ficou parado no século XVII.)

A versão dos Grimm de Chapeuzinho Vermelho é a mais “leve” de todas, mas ainda contém o elemento da culpabilização. De novo, uma menina muito bonita e de capuz vermelho desobedece às orientações da mãe de não se desviar de seu caminho e cai na conversa do lobo (“senhor Lobo”), e este devora a avó e a menina. No entanto, surge (do nada) a figura heroica de um caçador que salva as duas e, com a ajuda da Chapeuzinho, dá um fim no Lobo. Ao final do conto, a Chapeuzinho diz a si mesma: “Nunca se desvie do caminho e nunca entre na mata quando sua mãe proibir.”

E aí, a gente pensa: mas assim é ainda pior! Ela mesma se culpa por ter sido devorada!

Pois é. Esse era o tom de muitas das histórias infantis de outrora – e das histórias reais de hoje, também. Infelizmente, a culpabilização da vítima está em todo lugar. Onde ela estava? Por que conversou com estranhos? O que estava vestindo? Etc. Os julgamentos e as “morais da história” só mostram que sim, a cultura do estupro existe. Lobos, em toda parte, se acham no direito de “devorar” mulheres e meninas e tentam justificar o injustificável.

A culpabilização da vítima deve acabar. A cultura do estupro precisa ser combatida.

Pois temos o direito de usar a capa vermelha que bem entendermos.

Revisado por Juliana Skalski

SOBRE O AUTOR

Baiana, 22 anos. Graduanda em Letras pela UFBA e pesquisadora na área de Literatura Infantil e Juvenil. Bookworm, lufana e feminista. Gosta de literatura fantástica, narrativas policiais e releituras de clássicos, e acha que, no fundo, ninguém sabe direito "o que é Literatura".