Amor e sangue na história de Erzsébet Báthory: filme “The Countess” (2009)

thecountess2009

Erzsébet (ou Elizabeth) Báthory é mundialmente conhecida como uma das maiores assassinas de todos os tempos. A estória da condessa que se banhava em sangue de mulheres virgens para permanecer eternamente jovem já serviu de inspiração para autores como Bram Stoker, criador do vampiro mais famoso da literatura: Drácula. Até os dias de hoje, o nome de Erzsébet é sinônimo de crueldade e beleza para os povos da Europa. Apesar disso, pouco é sabido de sua vida, além dos detalhes que o processo movido contra ela em 1610 forneceu. A tragédia já é um elemento marcante na sua trajetória, porém, um pouco de amor somado a uma pitada de intriga forneceriam a fórmula perfeita para a produção de um longa-metragem destinado a vender ao público a imagem de uma mulher apaixonada por um homem mais jovem, a ponto de cometer as maiores loucuras em prol desse sentimento. Esse é basicamente o enredo de “The Countess” (A Condessa, 2009), filme franco-alemão dirigido e escrito pela francesa Julie Delpy, que interpreta Erzsébet Báthory, e também protagonizado por Daniel Brühl, como o jovem amante da condessa.

Narrado algum tempo após a morte de Erzsébet pelo seu amante, Istvan Thurzo (Brühl), “The Countess” apresenta para o público a trajetória de uma mulher forçada pela família a se casar com um homem que não conhecia e que após a morte do marido conheceu o amor nos braços de um jovem nobre. Descontando-se algumas licenças feitas pela diretora, como, por exemplo, esse caso de amor do qual a história não possui registros, o filme se mantém, na medida do possível, fiel ao que sabemos sobre Erzsébet Báthory. Ao contrário de outras produções que exageraram na lenda da “condessa drácula”, “The Countess” procura dar uma explicação plausível para as ações Erzsébet e de como a coroa da Hungria se aproveitou desse fato para se livrar das dívidas contraídas para com a nobre. Entretanto, o telespectador que espera não ver neste filme os famosos banhos de sangue tomados pela condessa, por acreditar que eles foram inventados pela crendice popular e alimentados pela literatura, talvez ficará um pouco desapontado, pois esta é uma das cenas presentes na obra.

Julie Delpy, como Erzsébet Báthory, e Daniel Brühl, como Istvan Thurzo .

Julie Delpy, como Erzsébet Báthory, e Daniel Brühl, como Istvan Thurzo .

Com efeito, o narrador destaca que muito do que se afirmam sobre a vida de Erzsébet é baseado em falácias da oposição e que ele estava reproduzindo apenas o que “ouvira falar”, de modo que o filme deixa claro que pode haver uma outra versão para o enredo que não aquela que está sendo contada. Assim, observamos em “The Countess” como a lenda da condessa sanguinária foi construída, originando-se através de um romance entre um jovem e uma mulher mais velha. Sem dúvida, essa explicação faria com que muitas pessoas olhassem para a figura de Erzsébet Báthory com mais indulgência. Porém, como já apontado no parágrafo anterior, essa explicação não passa de um preenchimento de uma lacuna histórica, feito pela diretora do filme. Mas seria impossível de acontecer? Provavelmente não. Estamos muito acostumados a olhar certas personalidades do passado como objetos expostos numa vitrine da história, impossíveis de serem tocados, e nos esquecemos de que eles possuíam sentimentos iguais aos nossos e, também, as mesmas fraquezas. Entre as viagens do marido para as guerras contra os turcos e o período de viuvez, Erzsébet poderia muito bem tomar um amante para satisfazê-la.

Na pele desta mulher de instinto indomável, temos a francesa Julie Delpy, roteirista e diretora do filme. O semblante austero, contrastado por momentos de fúria apaixonada, que Delpy empresta à personagem, passa ao telespectador a imagem de uma mulher com sentimentos reprimidos que de repente resolveu extravasa-los. A caracterização do papel, por assim dizer, é bastante satisfatória. Delpy possui o porte e a elegância que era de se esperar numa nobre como Erzsébet, membro de uma das famílias mais antigas e proeminentes da Hungria. Os Báthory de Ecsed se tornaram grandes fiadores da coroa na luta contra os turcos, sendo quase tão poderosos quanto o rei Matthias (Jesse Inman). Após a morte do marido, Ferenc Nadasdy (Charly Hübner), Erzsébet assumiu parte dos compromissos militares deixados por ele, continuando a investir na guerra nas fronteiras turcas. Uma vez viúva, ela finalmente se tornou uma mulher economicamente emancipada, controladora dos próprios bens e independente da figura masculina, recusando-se a contrair segundas núpcias.

O que a condessa não esperava, contudo, é que no seu caminho apareceria o jovem Istvan Thurzo. O clima de romance no filme é, em grande parte, devido à presença dessa personagem historicamente inventada, que abalou o mundo de certezas de Erzsébet. Em alguns aspectos, é como se ele tivesse saído de uma das peças de Shakespeare diretamente para a estória da condessa. O ator Daniel Brühl interpreta este rapaz impetuoso e apaixonado, disposto a enfrentar os preconceitos da comunidade para viver seu sentimento com uma mulher mais velha e de condição social superior. Até aí o enredo é quase clichê, não fosse o desfecho que essa estória de amor teria. Enquanto Istvan estava no florescer da juventude, Erzsébet tomava cada vez mais consciência de que estava envelhecendo e o afastamento do casal, planejado pelo pai do rapaz, Gyorgy Thurzo (William Hurt), só fez agravar essa situação. Sentindo-se rejeitada pelo objeto do seu amor por ser mais velha, a condessa procurou desesperadamente um meio para conservar a sua beleza, comprometendo assim a sua sanidade mental. A obsessão que tomou conta dela nessa fase seria também a causa de sua ruína.

Em cena: Erzsébet Báthory (Julie Delpy) e Anna Darvulia (Anamaria Marinca).

Em cena: Erzsébet Báthory (Julie Delpy) e Anna Darvulia (Anamaria Marinca).

A partir desse ponto, o filme segue uma linha de narração que contempla muitas das historietas envolvendo Erzsébet Báthory. Uma delas é o episódio da senhora idosa que foi chicoteada na estrada pela condessa por dizer que um dia esta seria tão velha quanto si. A diferença nessa cena se deve à presença de outra personagem também historicamente inventada: Dominic Vizakna (Sebastian Blomberg), espécie de agente secreto da coroa, enviado para descobrir alguma informação que pudesse comprometer Erzsébet. Mulher de natureza brutal, a condessa só precisava de alguém que lhe inspirasse a crueldade já presente no seu caráter. Essa pessoa foi Dominc. Assim, num certo dia, enquanto estava sendo penteada por uma criada que lhe puxou sem querer os cabelos, Erzsébet lhe golpeou com a escova, chegando a ferir a moça. De repente, ela percebeu que o sangue da jovem que respingou no seu rosto teve o poder milagroso de rejuvenescer a sua pele. A nobre havia encontrado então o que precisava para conservar a sua beleza, pouco se importando com a quantidade de mortes que isso causaria.

No período renascentista, era comum o uso de determinados unguentos preparados a base de ervas para clarear a tez e disfarçar os sinais da idade. Erzsébet Báthory certamente era usuária desse tipo de cosméticos. Em “The Countess”, eles eram preparados por Anna Darvulia (Anamaria Marinca), espécie de feiticeira que mantinha um relacionamento lésbico com sua patroa. A própria presença dessa personagem diz muito sobre o misticismo dos húngaros do final do século XVI, que acreditavam em bruxas e seres sobrenaturais. Muitas famílias, inclusive, mantinham consigo uma curandeira especializada na preparação de poções, como Darvulia. Ela era a única que, no filme, conseguia enxergar as reais intenções de Dominic em despertar o lado mais cruel de Erzsébet, para compromete-la mais tarde. Desde o início se manteve contra a ideia de usar sangue de moças virgens como produto de beleza. Seus protestos, entretanto, encontraram a forte oposição da condessa, decidida a manter-se eternamente jovem para o homem que tanto amava.

Com efeito, é nesse cenário que surgem os banhos de sangue tomados por Erzsébet Báthory. Se eles foram reais ou não, cabe à história desvendar um dia. Porém, eles se constituem num dos elementos mais macabros e também fascinantes da sua vida. Enquanto hoje em dia celebridades recorrem cada vez mais à aplicação de sangue na pele para fins estéticos, podemos dizer que a condessa foi a primeira a inaugurar esse tipo de tratamento. Só podemos imaginar como isso acontecia, mas a ideia de Erzsébet mergulhada numa banheira de sangue talvez possa parecer um pouco ridícula aos nossos olhos. O fato é que a quantidade cada vez maior de corpos de mulheres encontradas ao redor de sua propriedade começou a chamar a atenção dos aldeões e posteriormente das autoridades. Como membro da nobreza e descendente de uma família de linha secular, era preciso mais do que isso para leva-la a julgamento. A coroa precisava de provas e o espião Dominic estava pronto para forja-las. Agora que Anna Darvulia tinha falecido, Erzsébet estava abandonada à própria sorte.

O filme sustenta a falácia de que Erzsébet usava o sangue de moças virgens como cosmético.

O filme sustenta a falácia de que Erzsébet usava o sangue de moças virgens como cosmético.

“The Countess” sustenta para o telespectador a hipótese de que havia um plano arquitetado pela coroa para se livrar da dívida contraída para com a condessa e confiscar os seus bens. Mas enquanto esses meios permanecem ainda objeto de especulação para a história, no filme a arma usada contra Erzsébet foi o seu próprio amor por Istvan Thurzo, o ponto fraco na sua armadura. Julgada culpada pelos crimes de que fora acusada, a condessa foi emparedada dentro de um dos cômodos do seu próprio castelo para morrer sozinha, abrigada pelas sombras. Teria ela se matado ali dentro como o filme nos induz a acreditar? Talvez sim ou talvez não. O fato é que Erzsébet não viveu dias suficientes para se tornar uma senhora idosa como a velha que chicoteara na estrada, permanecendo na morte eternamente jovem. 400 anos já se passaram desde que seu corpo foi encontrado e ainda é difícil separar o que é boato e o que é realidade em sua vida. Como diz o próprio narrador do longa-metragem, a História é feita por vencedores e o que restou de Erzsébet Báthory foi a “fábula de uma vampira sedenta de sangue e de uma assassina louca”, cuja verdade permanece sepultada por detrás daquela parede de tijolos do quarto onde fora encarcerada.

Resenha também publicada no blog do autor: Rainhas Trágicas

SOBRE O AUTOR

(23) é formado em História pela UESC (Ilhéus-BA) e mestrando em Memória: Linguagem e Sociedade pela UESB (Vit. da Conquista - BA). Gosta de passar o tempo pesquisando sobre vida de personagens célebres do passado, tanto do Brasil, quanto do Mundo. Atualmente dedica-se ao seu blog pessoal, o Rainhas trágicas e procura destruir seu vício em refrigerante, mas confessa que não fez muitos progressos nessa área.