Um dia, saí de shorts

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Primeiramente, acho plausível checarmos se estamos em consenso: se faz mais que 35 graus em sua cidade, com a secura queimando seus olhos e cada milímetro de roupa grudando no corpo, temos a liberdade de vestir uma blusa de tecido mais fino, prender o cabelo, até usar papete do Seninha, certo? Também dispensamos a calça jeans para vestir uma bermuda, ou um shorts, ou uma saia. Vestidos também podem ser usados – estão à venda, afinal. Vale também ressaltar que em minha cidade, durante a temporada, não há distinção entre praia, supermercado e sorveteria: você pode encontrar turistas vestindo apenas uma sunga branca em qualquer um desses lugares. Utilizo o transporte público desde pré-adolescente e costumava andar usando as roupas que julgava propícias, como calça ou bermuda legging para a aula de dança (naquela época, sem amarrar nada na cintura) e vestidos, que eu gostava, para a aula de pintura. Nas aulas de dança também dispensava o sutiã, o que foi logo repreendido por minhas próprias colegas que só estavam “me dando um toque”. Minha mãe nunca se comportou como as meninas da minha idade, dizendo que eu deveria usar sutiã ou ainda recomendando que não andasse por aí de vestido. Por não ter aprendido que isso era um “problema” tão cedo, não foi até os 14 anos que comecei a usar calças para tudo e perceber que até atravessar a rua pode ser um pesadelo. Carros e caminhões buzinando me ensinaram.

Tudo se tornou mais evidente quando atravessava uma avenida movimentada com duas amigas e uma delas vestia uma saia rosa. “Com essa sainha quem não deixa passar, né?”, disse o homem do carro que parou para nós. É quase instintivo virar para olhar o rosto do indivíduo e falar qualquer coisa, mas as mulheres acabam aprendendo que podem morrer por causa disso (afinal, estávamos no meio de uma avenida). O que elas fazem? Focam num ponto qualquer do horizonte, continuam andando. “Eu já tô acostumada com isso”, minha amiga disse, soltando a risada nervosa de quem sabe que pode ser mal interpretada. Tudo bem, eu entendi o que ela queria dizer e me toquei de que não acontecia apenas comigo. O tempo passa e você vira especialista em ignorar esses comentários, tão comuns que nem tem como vislumbrar um mundo sem eles, a desculpa é de que é gente sendo gente, homens sendo homens.

No começo desse texto, apresentei as circunstâncias de um dia muito quente e espero que tenhamos entrado em um consenso de que eu posso, obviamente, vestir um shorts quando isso acontece. Certo dia, usei shorts para ir ao curso de inglês, sabendo que não era uma boa ideia. Àquele ponto, minhas heroínas eram as moças que reagiam ao assédio, seja mandando se foder ou mostrando o dedo do meio. Já tinha tido contato com as causas do feminismo e apesar da raiva ser a mesma, fiquei feliz que existiam mulheres que não se conformavam com isso – como eu costumava fazer. Minhas colegas de sala, de 15 anos, andavam na minha frente depois da aula e via o mesmo acontecer com elas. Nesse dia do calor insuportável, atravessei a avenida para pegar o ônibus de volta para casa. Um carro parou imediatamente, o homem de dentro dele diz “Pode passar, gatinha”. Meu maxilar foi para frente, meus olhos rolaram até doer e passei em frente dele. “Que isso, tá louca?”, ele solta. Um pouco, só, my friend. No ponto de ônibus, contei três caminhões que buzinaram. Quando um caminhão buzina é um misto de susto pelo barulho, nojo pelo motorista e raiva por não ter feito nada. O último deles parou – sim, em frente a um ponto de ônibus – e ouvi o passageiro me chamar. Uma, duas vezes. Na terceira mostrei o dedo do meio e enfiei meus olhos nos dele. Ele riu, claro, e o caminhão virou à direita. Cheguei em casa mais pesada que o normal.

Aproximadamente seis meses se passaram e no mesmo ponto de ônibus onde estou acostumada a me recordar de coisas ruins, sem a presença de nenhum homem, tirei os fones de ouvido para ouvir a conversa das mulheres que me faziam companhia. Os rostos já eram conhecidos, muitas delas eram amigas de ponto de ônibus e sempre falamos sobre o tempo. Mas elas contavam sobre as vezes que homens as seguiam de noite, ou até mesmo às 5h da manhã a caminho do trabalho. “Uma vez, um carro parou aqui mesmo nesse ponto e eu fui ver quem era, podia ser alguém que eu conhecia, mas não era ninguém, só um desses tarados”. Todas tinham o que contar. Em momentos assim entendemos como a ignorância é uma dádiva. A ignorância é leve, eu poderia muito bem ter aumentado o volume da música e deixado tudo rolar sem ouvir uma palavra, sem remoer o fardo de que isso é corriqueiro, que poderia acontecer comigo. Contudo, já acontece. As mulheres não têm direito à ignorância, elas vivem isso todos os dias.

Sabemos bem que idade, peso, cor de pele, corte de cabelo, etc. não são critérios para assédio. Usar shorts não é. É abissal minimizar estupro, assédio e pedofilia baseado em características físicas. É abissal precisar minimizar movimentos de outras pessoas baseado nos seus preconceitos – que, pasme, não é legal só porque outras pessoas concordam contigo. É abissal não querer discutir feminismo porque é assunto “hype”, enquanto pessoas são mortas, mulheres estupradas não podem ter acesso à pílula do dia seguinte e garotas de 12 anos alvos de uma livre obsessão de pedófilos. É abissal estarmos falando de heterofobia e genocídio branco. Entenda que diálogo funciona, tente se despir dessa rede imensa de julgamentos e idealizações de como cada pessoa deve agir.

Tente não fazer a liberdade de expressão ser uma merda porque você a utiliza para disseminar ódio. Tente entender que você não é a medida de todas coisas, muito menos suas discriminações.

SOBRE O AUTOR

São 17 anos procurando significado nas coisas e falhando miseravelmente. Tenta carregar o peso do mundo nas costas, mas há poucas coisas que um abraço coletivo, um bom filme e um pedaço (leia-se: toda a barra) de chocolate não resolvam. #proudhufflepuff