Análises e reflexões sobre 5 contos de fadas

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Texto compartilhado com o Literatortura

Semana passa, no meu último artigo, trouxe para vocês as versões originais de alguns contos de fada:  (http://literatortura.com/2015/09/5-historias-originais-de-contos-de-fada-bem-mais-macabras-do-que-se-imagina/). Deem uma olhada, caso se interessem. Nessas versões originais, há sexo, estupro, morte, pacto com diabo e outras coisas bem pesadas. Porém, mesmo com enredos desses, as histórias ainda eram feitas para crianças, pois sempre tinham uma moral, e mesmo quando foram reescritas e adaptadas pela Disney, havia uma moral parecida. Por tanto, contos tão antigos e tão recriados com diversas morais, têm muito o que ser analisado. Então, como prometido na minha última coluna, aí vai:

Cinderela: Nas versões adaptadas, a moral é ser bondosa, que uma hora seu destino vai bater em sua porta e se você tentar prejudicar o outro, vai pagar por isso. Na versão da Disney é o que acontece, a madrasta e as irmãs ficam sem nada. Já nas versões mais recentes, adaptadas de uma forma moderna como “A nova Cinderela” com a atriz Hilary Duff e “Um outro conto da nova Cinderela” com Selena Gomez, as meninas que se sentem invisíveis na escola ficam com o menino mais popular, e a moral é que mesmo nos dias de hoje, esse conto é atual e devemos ver o interior da pessoa. Mas indo mais a fundo e buscando referências em pesquisas feitas pela Universidade de Harvard, a história mostra aos adolescentes, que em algum momento da vida vão se achar injustiçados, que o que lhes pertencem voltará para eles. É como se a história fosse algo reconfortante para os jovens, e não somente na atualidade, mas desde que a história foi contada, já que na época as pessoas morriam cedo e os filhos passavam a serem criados por madrastas e padrastos que não eram nada gentis com eles. O príncipe e a fada madrinha representam a salvação, e de acordo com a pesquisadora da Universidade de Harvard, Maria Tatar, a Cinderela é o ideal de mulher forte que persiste em seus sonhos e desobedece as ordens da madrasta para isso, mas é também a fantasia de todo o homem, que mesmo forte e decidida, na intimidade mostra que sabe ser submissa (baseando isso no fato dela ser tratada como submissa pela família). Análise de Maria Tatar, não minha.

Pequena Sereia: Na história de Ariel, feita pela Disney, a moral é do amor que supera barreiras mesmo os apaixonados sendo de mundos diferentes. Também há uma possível análise sobre o abandono da família, nada tão terrível que implica em nunca mais ver seus pais, como no caso de Romeu e Julieta. Ariel continua a falar com seu pai e suas irmãs, mas na vida real, quando nos casamos, saímos de casa, passamos a ver menos nossos pais e vamos constituir nossas próprias famílias. Isso é mostrado muito bem nessa história, Ariel ama o pai e as irmãs, não é como a Cinderela que é maltratada em casa, mas os deixa no mundo subaquático para viver com o seu marido, e na vida real, o filme mostra um preparo para isso, que eventualmente vai acontecer, sair de casa, mesmo amando todos lá, e começar uma família. Na versão original, em que a pequena sereia é fissurada pela ideia de ter uma alma eterna (conheça a versão original aqui: http://literatortura.com/2015/09/5-historias-originais-de-contos-de-fada-bem-mais-macabras-do-que-se-imagina/), o autor (Hans Christian Andersen) partiu dessa ideia para modificar a imagem que as sereias da época medieval tinham, de que eram sedutoras e roubavam as almas dos homens, por isso a pequena sereia era ingênua, romântica e meiga. A bruxa do mar rouba sua voz exatamente por isso, por causa da crença de que com a voz as sereias enfeitiçavam os marinheiros. Indo mais a fundo, de acordo com a pesquisa de Virgínia Gonçalves, psicóloga especialista em terapia familiar, a sereia (menina frágil) perdendo a voz, é a personificação de mulher ideal (submissa e que fala pouco). Outro fato que me chama atenção é que, na versão original, a sereia se sacrifica para deixar o príncipe vivo, e isso remete ao papel que a mulher tinha em várias lendas e mitos gregos, o do sacrifício, como na história de Ifigênia (link para quem não conheça a história: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ifig%C3%A9nia) , já que esses contos têm muitas referencias mitológicas.

Branca de Neve: De acordo com uma análise Jungiana do conto, A Branca de Neve possui uma beleza natural, a que a Rainha inveja. Quando a Rainha má tenta matar a Branca de Neve, ela primeiro usa um espartilho para sufocá-la e um pente envenenado (de acordo com a versão original). Esses dois objetos são símbolos de vaidade, que proporcionam uma beleza que Branca não precisava, já que já tinha isso naturalmente, de forma que fica mais ávida quando vai para a floresta (beleza natural) fugindo do palácio que tem uma beleza imposta por joias e objetos caros. A maçã tem uma ligação muito forte com a história bíblica de Adão e Eva, em que por sua curiosidade e indução da cobra, Eva morde a maçã e é expulsa do paraíso. Sendo assim, o simbologismo da maçã é muito forte e marca o fim da inocência da princesa, que após isso e após ser salva, a princesa ingênua e bondosa se casa e assiste sem achar ruim a Rainha dançar com sapatos de ferro quente até morrer. Ok que a rainha queria matá-la, mas a jovem boa e ingênua do começo da história não iria agir assim, por isso a maçã, a perda da inocência.

Algo mais atual e comentado em teorias da conspiração por aí é da versão da Disney, ter os sete anões representando, cada um deles, os efeitos da cocaína. Sabe-se que na versão original não há muito foco nos anões, não se fala muito deles e seus nomes não são revelados, já na versão da Disney, eles se tornam personagens carismáticos e engraçados que tem até uma música fofa. Não é exatamente uma análise, está mais para uma teoria da conspiração, mas vale a pena falar: não se esqueçam, que o filme é em inglês, e na hora da tradução os nomes sofreram algumas alterações que não ajudam na hora de entender essa teoria, mas em inglês isso daria perfeitamente certo. Vejam:

Mestre: (Doc, que quer dizer doutor): Mostra a sensação boa da cocaína, a sensação de onipotência.

Feliz: (Happy): Ainda no estado bom da droga, que é quando o indivíduo fica muito feliz.

Dunga: (Dopey, que significa drogado): A fase em que o indivíduo se isola, fica sem falar, logo quando o efeito da droga vai passando.

Zangado: (Grumpy): mostra a irritação após a abstinência.

Atchim: (Sneezy): esse é o anão que espirra, lembrando que a cocaína é uma droga que se cheira, então esse personagem representa os danos ao nariz.

Dengoso: (Bashful, que quer dizer tímido) mostra quando o indivíduo começa a sentir a dependência e tem instabilidade emocional, uma das características desse anão.

Soneca: (Sleepy): Representa a última fase, quando o efeito passa totalmente e vem o sono e o cansaço.

 Não se sabe se é bem isso, não dá para chamar de uma análise, fica mais como algo para se pensar se faz sentido, uma curiosidade e não necessariamente uma análise.

Chapeuzinho Vermelho: Essa análise eu estava um tanto quanto animada para escrever. Certa vez, peguei um livro na biblioteca que minha professora de literatura me indicou: “Análise psicológica dos contos de fada” de Bruno Bettelheim. Confesso que o livro não me agradou muito, pois haviam muitos detalhes de psicanálise mesmo, e como eu já fiquei um tempo na faculdade de psicologia e não me dei muito bem com isso, na hora descartei, mas revendo seus conceitos há muita coisa interessante. Não estamos aqui para fazer análises muito aprofundadas em psicologia (isso deixamos para os especialistas), mas para termos uma ideia. Na visão de Bruno Bettelheim, com influência nas ideias de Freud, o caçador é a figura de tudo o que a garota deseja, com base em um complexo de Édipo feminino, que a menina sente atração pela figura do pai, pois é alguém que a protege e castiga. Ainda nessa ideia de atração, a menina sente pelo Lobo Mau uma atração, por ele querer machucá-la e ser um animal (uma metáfora para o lado animal que existe na hora do sexo). Mas agora, lembrando da versão original, que não existe caçador e que a Chapeuzinho faz um strip para o Lobo e foge enquanto ele está distraído se masturbando, há algo sexual bem forte também. O fato de usar a sexualidade para tirar vantagem (luxúria), o perigo do estupro (algumas versões não registradas em papel mostram isso) e o desejo em si, já que em algumas versões contadas a Chapeuzinho vai para a cama com o Lobo por puro desejo, que representa o desejo pelo o que pode te machucar, e a vontade inconsciente de desobedecer a mãe em um ato de rebeldia adolescente. Nas versões reescritas posteriormente, e na que é contada atualmente, a moral é não falar e não confiar em estranhos, as mais antigas têm a moral de que meninas não podiam sair sozinhas, e tinham que voltar antes de escurecer pois era muito perigoso, e isso podia desencadear na perda da inocência (virgindade), o que pode acontecer quando meninas começam a sair e perdem por vontade sua virgindade, ou quando saem sozinhas e são estupradas. Engraçado, por mais antiga que a história seja, ela consegue se tornar atual, quantas vezes eu já ouvi que se eu saísse sozinha em um determinado horário ou em para um certo lugar, algo ruim podia me acontecer, não é mesmo?

A Bela e A Fera: Nesse conto de fadas, há algo gritante para ser analisado: A síndrome de Estocolmo (quando um sequestrador começa a tratar bem a vítima e ela se apaixona por ele). Lógico que há o fato da paixão, e é um conto de fadas e tudo fica mais bonito, mas não venham negar que isso também chamou a atenção de vocês. A Fera passa a tratar bem a Bela, que por sua vez começa a criar sentimentos pela Fera, que a deixa aprisionada, sem poder sair, e mesmo assim acontece o romance, quer dizer, ou mesmo assim eles se apaixonam, ou por conta disso ela se apaixona, pelo fator psicológico de estar presa e com medo e a criatura a tratar bem, sem contar o desejo que rodeia muitas mulheres, mudar um homem, fazer com que ele desenvolva e lhe dê todo o amor que guarda dentro de si. Para quem leu meu último texto, na versão original desse conto, a Fera é uma cobra, que tinha este formato por conta de um castigo que recebeu por abusar sexualmente de uma criança órfã. De acordo com diversas análises da história original, o animal cobra vem do símbolo que ele representa desde a história de Adão e Eva, o animal que faz com que o outro perca a inocência, por isso a Fera se tornou uma cobra, por tirar a inocência do menino. A moral da história, é que para um adulto, sexo pode ser maravilhoso, mas para uma criança, algo assustador, por isso a figura da cobra, algo que dá medo em uma criança. A própria moral já é uma análise, uma metáfora para o que um abuso pode ocasionar na mente de uma criança: o medo do próprio sexo, que deveria ser algo bom.

Enfim, claro que não são análises aprofundadas, é apenas um pequeno artigo sobre isso. Para isso, parti da ideia que as versões originais tinham alguma moral para deixar para as crianças, assim como as da Disney foram modificadas para trazer um outro tipo de mensagem, e as adaptações atuais, com enredos modernos e até mesmo aquelas que modificam e misturam os contos (como o recente filme “Caminhos da Floresta” e a série de televisão “Once Upon a Time”) trazem uma releitura afim de mostrar algo através de histórias tão conhecidas com interpretações fantásticas.

SOBRE O AUTOR

Estudante de letras, 20 anos, gosto desse humor ácido que existe nas coisas, poderia ficar horas escrevendo sobre meus vícios na terceira pessoa, mas por ora, deixo apenas explícito minha paixão pela sétima arte e pela literatura e espero que com elas seja possível melhorar, um pouco que seja, o mundo. E lógico, como todos tenho meus sonhos, talvez virar a próxima J.K. Rowling ou até mesmo seguir os passos de Shakespeare, ou também, ganhar um Oscar, quem sabe...! Hahaha (acho que agora deu para entender a parte do humor ácido, não é mesmo?).