O que você desconstruiu hoje?

CAPA

Há alguns dias, tive uma experiência sensacional.

Sentei pra conversar com outras mulheres com as quais não tenho convivência. Juntamo-nos pelo acaso, e essa eventualidade foi um presente.

Com nossos vinte e poucos anos, em média, começamos a falar de diversos assuntos – o batom que durava horas, a depilação, o coletor menstrual, o relacionamento com a mãe que não anda tão bem. Tudo tão exatamente parecido.

“Mas como é? Você vai colocar um copinho dentro de você, no lugar do absorvente?”, e a conversa seguiu horas a fio, falando sobre as modernidades e como o mundo se desenrola hoje, para nós.

Colocamos na roda o machismo que ainda carregamos, o fardo, e como estamos desesperadas por deixá-lo, mas ainda… Não conseguimos.

Sim, não conseguimos.

Machismo não é só aquele cara que trabalha o mesmo tanto que você e ganha mais. Posicionar-se contra isso é fácil, bonito, moderno.

Desconstruir o machismo é mais que isso.

É você não deixar um fiozinho sequer na axila porque vai levantar os braços em alguma hora e vai ter alguém ali do seu lado, medindo. E vai ser uma mulher.

Sabe por quê? Porque o machismo nos quer assim: escravas de nós mesmas. Submetidas.

Contei a elas, então, que minha maior vontade era tingir os pelos das axilas de azul.

Com aquelas caras de espanto, uma exclamou: “Mas cresce a ponto de poder tingir?” – na maior provação de que ela sequer esqueceu seus pelos por um dia.

Eu também nunca deixei crescer. Infelizmente – porque minha (pseudo) vontade de deixar os pelos coloridos trata-se nada mais do que minha imensa vontade (real) de vencer meu machismo. Vencer o pensamento de que é sujo, de que isso me faz menos mulher. Aquele pensamento mais escondido, profundo. Aquele que incomoda.

O que me faz menos mulher é calar e consentir.

O que me faz menos mulher é achar que a prova de sociologia e a redação do ENEM deste ano foram “feministas esquerdistas”, e não sobre direitos humanos.

O que me faz menos humana é achar-me no direito de chamar o meu próximo de vitimista.

“Trata-se de mudar o foco, reorientar a perspectiva que parte do ego e elevá-la ao todo.” (Renata Esteves)

Trata-se de entender a perspectiva egocêntrica e pueril que nos circunda, nos tolhe, incessantemente, todo-santo-dia. Nos “pelos” que temos, nos direitos que temos.

Na inércia em que nos coloca, mulheres, sem força pra sermos livres dos detalhes mais dolorosos do patriarcado.

É tempo de deixar-se imergir nesta onda proporcionada pelos gritos da comunicação fácil, onde o ódio revelado por opiniões rasas vai sendo abatido com informações precisas e fundamentadas. Não que isso vá mudar rapidamente os pensamentos que mais carecem, mas…

O que você desconstruiu hoje?

Fontes de inspiração:

http://extra.globo.com/mulher/beleza/pelos-das-axilas-coloridos-viram-mania-na-internet-14676730.html

https://www.facebook.com/renata.esteves.5209/posts/10205076770791304?fref=nf&pnref=story

SOBRE O AUTOR

Com a loucura rock'n roll percorrendo as veias, é louca dos gatos e mergulha com facilidade nos universos políticos-sociais. Confunde coração com escudo. Gosta do pé no chão e a cabeça nas nuvens - sagitariana convicta.