ENEM, obrigada pelo debate!

Simone-de-Beauvoir

Texto compartilhado com o Literatortura

A pós modernidade e sua ignorância nos colocaram frente a frente com barbáries que, como foram motivo de ironias nas últimas semanas na internet, colocaram o século XXI como um século quase antes de Cristo.

A Literatura tentou, inúmeras vezes, ser a voz de gerações (não faço aqui generalizações, até porque nem é toda produção literária que tem cunho social), ser a voz que precisava gritar e implorar mudanças, ser a voz relato, a voz que muda e a voz que cala. E então veio a prova do ENEM de 2015, em que a polêmica girou em torno de uma questão tão necessária, a liberdade da mulher. Sim, A Liberdade! A literatura da filósofa francesa, inspiradora de inúmeros conceitos usados pelo movimento feminista, Simone de Beauvoir tratou não só da ficção ou de, subliminarmente, seu romance com o também filósofo francês Jean Paul Sartre, ela tratou da mulher. Tratou de como a cultura, a sociedade e tudo mais cria a ideia de mulher, a ideia de gênero, e de forma existencialista, cabe a nós mulheres a liberdade de também fazermos o que quisermos com essa manipulação do ser mulher. Obrigada ENEM por incitar esse debate, precisamos falar da liberdade de ser Mulher!

Machado de Assis quebrou a pureza da mulher idealizada, em suas obras realistas como Dom Casmurro e Memórias Póstumas e Brás Cubas, tem-se mulheres que traem, que batem de frente, que levantam a cabeça, mulheres reais! Com a autora inglesa Jane Austen tem-se críticas bem embutidas sobre a posição da mulher da época, que era casar, olha só, temos uma mulher falando para o mundo, através da literatura, que a hierarquia de gêneros tem seus brutos equívocos.

A mulher sofreu barbáries para garantir direitos que lhe seriam inatos em sociedade, a mulher era estuprada durante as guerras, durante a história, ainda é hoje! Mulher conquistou direito de votar, de participar da política, de fazer faculdade, de ser parte integrante do mercado de trabalho, de estar ao lado de um homem e ser tão capaz quanto ele. Mas a mulher ainda não é livre, ainda não sai de casa de roupa curta sem medo, não anda sozinha num lugar mais deserto sem medo, não tem direito de abortar. A mulher precisou de uma lei que a protegesse das agressões que lhe eram causadas, a Lei Maria da Penha precisou existir para que os crimes cometidos fossem vistos como tal, a mulher precisa viver todos os dias sob os olhares da cultura do estupro, da cultura machista… Mas criticaram o Enem por caráter doutrinador…

Doutrinar agora é citar filósofos e teóricos que abordaram questões humanas presentes na sociedade? Doutrinar é pedir para que estudantes de todo o país pensem que é preciso dar atenção à violência contra a mulher e fazer o país tomar um rumo humano sobre isso? Por que a doutrinação criticada foi pautada só na questão feminista e na questão da mulher? Isso fere quem?

Vamos falar sobre doutrinação… Vamos falar sobre Simbolistas, escola literária considerada racista, vamos falar sobre românticos que insistiam em dizer que mulher boa era mulher pura… vamos falar sobre um Estado Laico comandando por um congresso conservador pautado na religião, vamos falar sobre o conceito de família, vamos falar que todo barbudo é sujo e de esquerda, vamos falar que a direita não entende bem o conceito que a cria (neoliberalismo), vamos falar que bandido bom é bandido morto…vamos doutrinar?

No meio da polêmica surgiram os comentários que diziam “ essa esquerda e essas pautas feministas”; primeiro, violência contra mulher e direitos humanos não devem ser pauta de esquerda, devem ser uma pauta GERAL, se forem só de esquerda nós já podemos pedir pro mundo parar porque vamos descer. Segundo, aonde leva essa necessidade de direita x esquerda em guerra de debate? Sociedade, primeiro vamos entender política, primeiro vamos entender direita e esquerda, depois vamos enxergar que ir pra frente é a melhor decisão política que podemos tomar, progresso… progredir é fundamental, na política, na economia, no social… nos direitos humanos!

            A mulher tem que ser livre, educação é exatamente o oposto de doutrinação, direitos humanos incluem todos, bandidos e mocinhos, e conhecimento é de fundamental importância política, vamos ter isso em mente, Brasil.

Revisado por Maria Eduarda Campos

SOBRE O AUTOR

Da antiga recém criada velha guarda. Amante da atemporal literatura, da boa cerveja, do niilismo...(não! pera...) Saudosista do eterno amor eterno!