O amor literário na era do Tinder

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Texto compartilhado com o Literatortura

Conheci minha namorada sem ver seu rosto. Na verdade, a conheci sem nem sequer saber se ela era um homem ou uma mulher. Eu a conheci pelo seu trabalho de escritora em um blog de contos literários eróticos. A história começou no momento em que dei match no Tinder com uma mulher (que era muito querida, devo dizer), mas com a qual não desenvolvi nenhuma relação amorosa. Essa moça, após algumas conversas, me indicou um blog de contos dizendo que eu iria adorar ler os textos. Ela tinha razão. Foi amor à primeira vista. Os contos possuíam uma qualidade extrema e me envolveram da mesma forma que grandes livros de meus autores favoritos. Por muitas noites, o blog foi minha leitura de cabeceira. Eu deitava antes de dormir e, iluminado apenas pela luz do meu celular, lia e relia todos os contos, maravilhado, extasiado e vibrante. Eu me lia naqueles textos. Eles eram uma tradução exata de meus mais profundos pensamentos que eu nem sequer sabia que tinha. Depois de tantas leituras em voz alta, tantas noites em claro e releituras intensas, tinha certeza que nos conhecíamos muito bem. Eram íntimos. Eu aguardava ansiosamente para que um conto novo fosse lançado. Precisa saber no que aquela pessoa estava pensando. Foi então que percebi qual era a maior diferença entre esse blog específico e a infinidade de outros sites de contos eróticos espalhados pela web. O blog em questão era, assumidamente, ficcional. Você, leitor, já deve ter acessado algum desses sites e sabe que todos os contos iniciam com a seguinte frase: olá, meu nome é xxx, tenho 25 anos, cabelos escuros, pele bronzeada e corpo atlético. Ou seja, a grande maioria dos escritos virtuais desse gênero tem a intenção de parecerem reais. E, sendo ou não verdadeiros, não se propõe a inventar histórias, tramas e personagens que brotam de uma fértil imaginação. A intenção dos sites eróticos é simular em formato de texto os sites pornográficos.

Depois de ler e reler os contos, percebi que tinha que saber quem os escrevia. As qualidades eram tão evidentes que eu precisava avisar seu autor ou autora de que eu estava apaixonado pelos contos. Achei seu nome no blog e era feminino. A procurei no facebook e encontrei um perfil com uma foto de apenas metade de seu rosto e com a cabeça coberta por uma espécie de tiara. Quase nada era visível, mas já era alguma coisa. Não havia informações de idade, região, escolaridade ou o que quer que fosse. Sem outras fotos, nenhuma publicação visível. Um perfil bloqueado para intrusos. Por alguns dias, refleti se iria adicioná-la ou se abandonaria a ideia. Cheguei a cogitar encontrá-la em algum local público casualmente, mas percebi que era uma opção remota. Vasculhei os amigos em comum e não encontrei ninguém próximo o suficiente, mas não iria desistir. Decidi abordar um deles para tentar coletar alguma informação. Perguntei a um rapaz quem era ela, de onde vinha e como podia ter tanto talento. Ele afirmou tristemente que não a conhecia de fato. Ele sabia quem ela era apenas de vista. Desiludido e prestes a abandonar minha busca, fui marcado por uma frase dita por esse conhecido. “Sou um grande entusiasta do romance virtual. Vá em frente.”. Naquele momento percebi. Eu não tinha a menor ideia de quem ela era. Não sabia nada sobre ela. Ela era, na realidade, uma estranha completa. Mas em sua literatura éramos quase a mesma pessoa. Eu sentia como se ela soubesse tudo sobre mim.

Decidi adicioná-la. Tinha que tomar alguma atitude e, mesmo que me sentisse inseguro sobre uma abordagem que seria, no mínimo, estranha, acreditei que tínhamos algo a dizer um para o outro. Naquela noite, recebi sua primeira mensagem

– Nos conhecemos?

Foi um choque. Meu desejo era responder “Sim! Inclusive, tu me conhece melhor do que a maioria das pessoas”. Mas percebi que isso era mentira. Seu trabalho, por mais que verdadeiro e de muita qualidade, jamais seria capaz de defini-la como pessoa. Então lhe disse a única coisa que eu tinha certeza que era verdade.

– Não, mas temos muito o que conversar.

Naquela noite, iniciamos uma de nossas mais longas conversas. A familiaridade, as semelhanças e a intensidade confirmaram que nos conhecíamos melhor do imaginávamos e que a ilusão de sermos íntimos criada por sua literatura, tornava-se uma feliz e improvável realidade. Assim seguimos até o sol nascer. Do facebook, migramos para o whatsapp, onde trocamos fotos nossas, de nossas casas, livros que gostávamos e do que mais achássemos interessante. Qualquer coisa era pretexto para iniciarmos uma nova conversa. Durante dias e mais dias papeávamos virtualmente sobre os mais variados assuntos e, aos poucos, minha paixão pelo blog tornou-se uma paixão por uma pessoa. O site virou um pequeno elemento de uma grande mulher, que revelava, além da invenção, ser alguém que existia realmente. Do Whatsapp, seguimos trocando mensagens de texto pelo celular. Do Facebook, nos encontramos no Twitter e seguimos conversando por todos os canais existentes. Seu olhos eram a luz de meu computador que me iluminava ao longo da noite. Sua voz era o som do celular que me chamava para mais uma conversa interminável. Ela não estava ali, mas estava.

Enfim, decidimos marcar nosso encontro. Seria em um café durante a tarde com milhões de pessoas a nossa volta. Não soube o que fazer. Meu desejo de vê-la se chocava com a possível frustração de conhecer ela de fato. Ela poderia ser mais alta, chata de se conviver, repleta de manias ou extremamente problemática. Meu sorriso ao conversar com ela virtualmente era real. Mas e o dela?

O que mais me preocupava era a desilusão. Tinha medo que toda a magia construída por nós fosse quebrada no momento em que nos encontrássemos na vida real. Decidi arriscar. Marcamos o encontro e era isso.

Tenho 22 anos. Nasci na internet. De todos os relacionamentos que tive até hoje, nenhum se constituiu fora do espaço virtual. A facilidade de se ter acesso a quem quer que seja e ao que quer que seja nunca foi um problema para mim. O medo e a insegurança de confundir o ciberespaço com o mundo real também sempre existiu. Desde minha adolescência, reflito sobe todos os prós e contras de a palavra “disponível” fazer parte de nossas vidas tão cotidianamente. Ainda não tenho uma opinião formada.

Eu cheguei mais cedo. Tive medo de não reconhecê-la. Foi então que eu a vi, parada na porta do café, congelada pelo mesmo dilema de trazer seu computador para a vida real. Ela tinha um corpo, ela tinha olhos e ela tinha um sorriso. Era lindo.

SOBRE O AUTOR

Lucas é estudante de Realização Audiovisual e mora em Porto Alegre.