Setembro Amarelo: Carta aberta de um depressivo à literatura e outras formas de arte

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Texto colhado compartilhado com o Literatortura

Queridas literatura, cinema, música e outras formas de arte,

Acho que devemos conversar sobre depressão e depressivos, mas deixa eu me apresentar antes. Tenho vários estereótipos de uma pessoa com depressão: jovem, classe média, LGBT, de família evangélica conservadora, com muitos remédios, sessões de terapia e algumas tentativas de suicídio no currículo. Por mais que vocês adorem criar personagens com essas características, talvez vocês estejam falhando em mostrar para a sociedade o que a depressão realmente é.

Antes de continuar, acho importante dizer que não odeio vocês. Pelo contrário, amo tanto que estou escrevendo essa carta, por mais sem sentido que seja escrever para e não sobre formas de arte, e reconheço seu papel no nosso tratamento, então agradeço se puderem interpretar esse texto como uma crítica construtiva, ok?

Por mais que clichês se tornem clichês por serem reais, não dá mais para tratar grupos inteiros homogeneamente, sabe? 2015 e tal, o futuro já começou etc. Sabe, não somos apenas pessoas tristes que ficam pelos cantos chorando, afinal somos mais do que essa doença.

Isso mesmo, doença! Algo que necessita de tratamento assim como qualquer enfermidade. Remédios, terapia, arte, exercício físico e mais um monte de ajuda nos ajuda a viver como uma pessoa que não tenha depressão. Mas ok, isso já foi falado muitas vezes e acredito que a sociedade está começando a entender isso.

Mas, por favor, não romantize nosso fardo. Ser depressivo não é algo bonito, na moda, fofo ou trágico. A única coisa que ser depressivo significa é que temos depressão. Fora isso, não podemos dizer com certeza que todas as pessoas depressivas são algo. Então, vamos parar de tratar depressão como se fosse uma história de amor, de aventura e de magia.

Eu sei que muita gente gosta quando vocês falam sobre nós, ficam com dó e choram pensando sobre como somos corajosos por vivermos apesar disso. Não que não sejamos – e como somos! – mas não é como se tivéssemos muitas alternativas. A real é que, parafraseando Titus da série “Unbreakable Kimmy Schmidt”, as pessoas gostam de ver coisas terríveis pois se sentem boas por ficarem tristes por outras pessoas e se sentem seguras por aquilo não estar acontecendo com elas.

Mas não vou reclamar sem dar sugestões de como melhorar. É claro, são apenas sugestões e preciso me lembrar novamente de que vocês não sabem ler ou têm consciência para fazer alguma coisa, o que coloca minha credibilidade em cheque. Então é isso, sugestões sobre como fugir dos clichês. Lembrem-se de que:

Não é preciso: usar drogas, não “ter Jesus no coração”, ser adolescente, ter passado por uma infância turbulenta, ser tímido, chorar fácil, tentar suicídio, não ir bem na escola, não ter amigos, ser solteiro, ter histórico familiar, ouvir música triste ou usar preto para ter depressão.

Obrigado por me ouvirem, artes! Espero que daqui pra frente nos entendamos melhor.

Com amor, André Macedo

Nota: Esse texto foi escrito em apoio à campanha Setembro Amarelo, que visa conscientizar a população sobre depressão, prevenção do suicídios e questões relativas à pessoas neuroatípicas.

SOBRE O AUTOR

Formando em comunicação e multimeios, ama tudo que é considerado de gosto duvidoso e cultura pop em geral. Coleciona canecas, perucas e blocks de sub celebridades no twitter. Tem como maior meta de vida ter um turu tatuado no peito.