Não fui fabricada para ajustes, disse ela

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Texto compartilhado com o Literatortura

Num desses dias que São Pedro resolveu lavar os céus com mangueira (aparentemente não há crise hídrica no Paraíso) e as águas se acumulavam em cada milímetro dessa cidade sem sistema de escoamento, mãe Camila e filha Cecília decidem ir ao shopping. “Mas com essa chuva, mãe?”, perguntava ela do quarto, por baixo das três camadas de moletom e nada disposta para encarar o que já previa – as duas iriam às compras. Só que não compras do tipo canetas coloridas e cadernos novos: comprariam roupas. Preferia ver o novo Missão Impossível, mas Camila mãe achava que Tom Cruise se perdia na carreira e… “Filha, ninguém gosta de ir pro shopping com chuva, vai estar mais vazio”. “Mãe, sua lógica não faz sentido”, a resposta. A verdade é que Cecília temia pelas calças jeans que apertariam no quadril e pelas barras largas, as camisetas que marcariam toda a gordura abdominal, os moletons que a deixariam enorme.

Estavam a dois quilômetros do shopping quando Camila decidiu parar o carro para abastecer – em pleno toró – e Cecília se lamentou pelos frentistas que se mostravam encharcados e indispostos às 2h da tarde.

A dois quilômetros do citado posto de gasolina, pendurada em uma das araras do provador, uma calça skinny número 38 se lamentava pela moça que a desprezara mais cedo. Logo no seu primeiro dia na vitrine, foi parar na arara das mal-amadas e precisava ouvir as lamúrias da blusa decotada que se encontrava ao seu lado. “Ela se chamava Julia, ouvi o marido chamar do lado de fora”, dizia a baby-look M, justa na cintura e listrada vermelha com branca.

“Ficou olhando para o busto toda hora, devia estar pensando que não tinha peito e que o decote não ficou legal! Eu gritei, juro, queria dizer para ela que não tinha problema nenhum”, mas a calça preferiu manter-se imersa na própria desgraça e se lembrou da primeira moça que a viu no manequim. Gostaria de chamá-la por algum nome, por isso, a intitulou de Soul (porque tinha lido isso na camiseta dela). Soul a pegou primeiro, número 38, depois analisou bem as araras e tirou a 36 também. Mas a 38 sabia que era a mais bonita, que tinha um detalhe perto do cinto que a outra não tinha. Dentro do provador, Soul rejeitou a 38 com muita tristeza ao perceber que o pano ficava largo em sua coxa.

Cecília descia do carro com Camila e as duas corriam até a cobertura mais próxima. “Vamos comer alguma coisa antes? Tem um McDonald’s aqui”.

A calça sentia-se afrontada pela perfeição com que uma de suas colegas coube na funcionária da loja. Devia ser um número 40, o 40 sempre cabe na maioria. A funcionária fazia pouco: entregava os números para os clientes, perguntava se as roupas haviam servido e colocava a maioria nas araras. Esporadicamente colocava os fones de ouvido quando não tinha nenhum cliente para atender. E a 38 ficou imaginando como deve ser maravilhoso o mundo das calças 40.

Queria pedir uma casquinha, mas Cecília se conteve. Queria mesmo era ir às compras logo, matar a ansiedade ruim de uma vez. Queria olhar para tudo que não caberia, principalmente as calças 38, e imaginar qual teria sido a trajetória de todas as roupas nas araras.

Um vestido branco estonteante número 48 se meteu entre a baby-look e a calça skinny depois de uma senhora entregá-lo com muita alegria à funcionária. Acabara levando o 46. Todavia, o vestido era de ficar calado, como a calça, e assim se manteve mesmo com as indagações da blusa.

“Será que ela começou a fazer academia e emagreceu? Parecia tão alegre ao te entregar! Não fique assim, vai ficar lindo em alguém”. E aquela foi a gota d’água.

“Você não entende? Eu nunca vou conseguir fazer alguém feliz, nunca”.

Camila já enchia a sacola rosa com vestidos, camisetas e shorts com numerações iguais, confiante de que todas serviriam, enquanto a filha focou nas calças jeans mais azuladas. Pegou uma 38, a 40 e uma 42 caso o quarteirão já tivesse tido efeito. “Que bom que você não vai precisar passar mais de 10 minutos experimentando tudo isso, mãe, tudo vai caber”, disse ela.

“Há, imagina! Vou levar mais isso aqui… e você, só essas calças?”.

“É, só”.

Era difícil olhar para a arara de roupas masculinas e ver que todas conversavam em paz, sem lamentações ou ressentimentos. A baby-look listrada olhava para cada cliente que adentrava o provedor esperando atenção e o vestido se diminuía a cada roupa nova pendurada, mas o suficiente para esconder quase totalmente a calça 38. “Aquela menina ficaria perfeita em mim, tenho certeza!”, disse ela ao ver uma jovem acompanhada de sua mãe, com apenas calças na sacola.

Não gostava das lantejoulas no bolso falso da 42, por isso agradeceu que tenha ficado um pouco larga na cintura – mesmo que confortável nas coxas. A 38, como esperado, só ficou boa abaixo do joelho… era preciso prender o ar para puxar o zíper, dar uns pulinhos, e respirar com cautela. Só que a que Cecília mais desprezava mesmo era a 40, que tinha um tom mais escuro e era a cara da conformidade. Essa acabou servindo. Abriu as cortinas em fúria, com as três no cabide.

“Vou deixar as três aqui mesmo, mas será que eu posso dar uma olhada nessas roupas?”, indagou a jovem para a funcionária, que respondeu levemente incrédula.

“Claro, fique à vontade”

A calça skinny número 38 tentava se mostrar para Cecília, que caçava primeiro na barra mais baixa. Não havia calças embaixo. Agora dava uma olhada nas de cima, empurrando os vestidos, as camisetas, os shorts, e desistiu ao ver o vestido branco.

“Moça, tem uma calça 38 aí que é um pouco maior do que a numeração normal, atrás do vestido”, avisou a funcionária.

Cecília já estava farta. Farta de não gostar do seu corpo, farta de sentir-se culpada por não gostar do seu corpo, farta de pessoas que a faziam se sentir culpada, exausta de olhar para o vestido branco que pode fazer alguém se sentir da mesma forma.

“É sério, eu também tentei a 38 dessa que você pegou, mas a que eu estou usando é essa da arara”, disse a funcionária, olhando a jovem com a profundidade de seus olhos (ela, aliás, se chamava Isabela). A calça skinny 38 acompanhou Cecília para a cabine mais próxima.

“Caramba, você vai levar só essa calça?”, questionou mãe Camila ao deixar o provador com a sacola cheia.

“Gostei dela, ela foi gentil comigo, é um 38 maior”

“É linda mesmo… E o que você achou desse vestido?”, Camila retirava um modelo branco de mangas longas da sacola. Era lindíssimo e assertivo de autoconfiança, como sua mãe.

“Poderia ter se casado com ele”

“Peguei na arara… Vamos indo pro caixa, hoje o shopping tá cheio”, disse Camila, fechando os olhos em arrependimento logo depois.

“Ah, jura?”

Um vestido branco e uma calça skinny pegaram um pouco de chuva, mesmo dentro de uma sacola de plástico, a caminho do carro de duas mulheres sorridentes. Ambos muito bem-aconchegados. Apesar disso, gostariam de visitar a baby-look novamente e lhe assegurar que existe uma pessoa especial a sua procura, almejando tirá-la do aroma plástico da loja. Queriam dizer que o mundo é mais bonito com listras vermelhas e brancas, que ela não precisa de ajustes. Que existe um lugar para ela.

Revisado por Juliana Skalski

SOBRE O AUTOR

São 17 anos procurando significado nas coisas e falhando miseravelmente. Tenta carregar o peso do mundo nas costas, mas há poucas coisas que um abraço coletivo, um bom filme e um pedaço (leia-se: toda a barra) de chocolate não resolvam. #proudhufflepuff