Copa do mundo de futebol feminino e o porquê de quase ninguém dar bola

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Texto compartilhado com o  Literatortura

Que o futebol é paixão nacional em muitos países, move bilhões e bilhões de reais aqui no Brasil (e mais outros bilhões em todo o mundo), e faz a cabeça de uma enorme parcela da população não é novidade. Muita gente faz das tripas coração para acompanhar o time preferido por todo o país, e até mesmo fora dele, quando este participa de competições internacionais – além das próprias Seleções, obviamente. São vários fã-clubes, sob várias cores e nomes (por aqui seguem no estilo “Qualquercoisa Jovem”), gritando, de dentro do estádio, ou do sofá da sala, aos quatro cantos da Terra o quão apaixonados e fanáticos eles são pelo time do coração. Quando sai o tão esperado gol, os corpos parecem entrar num frenesi de emoção e explosão de alegria, e a palavra ressoa das profundezas da alma até enrouquecer a garganta: “GOOOOOOOOL!”.

Tem gente que acompanha tudo que é campeonato, nacional ou internacional. Sabe com precisão o placar da última rodada, quem marcou os gols, a posição na tabela e até a escalação do próximo jogo. Entretanto, o entusiasmo e loucura apaixonada dessas muitas pessoas parecem acabar quando o assunto é futebol feminino. A quantas anda o teu clube no feminino? “Não sei”, “Faz tempo que não acompanho”, “Meu time não tem feminino” são as respostas mais possíveis de se ouvir, e isso se deve a um fator bem simples de se identificar: os privilégios masculinos.

Em um discurso de formatura realizado esse ano para a Wellesley College, em Massachusetts, EUA, a autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie descreveu bem o retrato da nossa sociedade ao dizer que ela “já sabia que o mundo não dá às mulheres as mesmas pequenas cortesias que são dadas aos homens”. Ela ainda afirma que os homens, em geral, não são maus, ruins, mas sim, são cegados pela posição privilegiada que ocupam no sistema patriarcal. E no mundo dos esportes essa situação não deixa de existir, por mais inclusivo que ele tenha se tornado nos últimos anos.

Longe de ser um caso isolado ou exceção, o futebol jogado pelas mulheres tem pouco ou nenhum prestígio perante os milhões de fãs espalhados pelo globo. Existem imensas dificuldades em conseguir patrocínio (algo tão trivial no universo dos esportes praticados por homens), visibilidade quase nula quando comparado às imensas transmissões midiáticas dos atletas masculinos, além de uma constante crítica à suposta falta de técnica por parte das jogadoras – nem mesmo a estética foge quando o assunto é criticar: a jogadora que não agrada aos espectadores fisicamente então, coitada.

Lembro-me que quando criança, meu pai me levava, junto com os meus irmãos, a jogos de futebol, campos de treinamento society, e futsal. Em certa visita a um CT estilo society aqui pela região onde moro, vi um grupo de garotas jogando e achei fantástico! Olhei para um dos meus irmãos (todos mais velhos, by the way) e disse que também queria jogar, como aquelas meninas. A resposta que ele me deu me gravou de uma forma muito negativa, infelizmente, tanto que depois de quase 15 anos não consegui esquecer. Ele disse “Pra quê você quer jogar? Quer ficar com as pernas grossas igual de homem?” Mais coisas foram ditas, mas minha cabeça de criança entre 5 e 6 anos resolveu guardar essa parte muito bem em minhas memórias. Eu não via aquelas garotas como homens, apenas as achei bonitas, ali, fazendo algo que pareciam gostar tanto, e eu queria aquilo para mim, já que todo mundo na minha casa era – e ainda é – tão ligado ao futebol.

Depois do ocorrido tomei certa raiva do esporte. Por que eu não poderia fazer aquilo? Eu sabia que se treinasse e jogasse eu seria capaz, assim como qualquer outro garoto da minha idade. Mas fui podada instantaneamente, só de expressar meu desejo. E é isso que acontece com tantas outras garotas que desejam seguir algo categorizado pela sociedade como “isso não é para meninas”. Daí vem minha admiração por toda atleta mulher. Porque eu sei que nem todas têm apoio da família, nem todas têm credibilidade quando decidem ingressar na carreira esportiva (enquanto os meninos são incentivados ao máximo, e, olha que absurdo, são hostilizados se não gostam de esportes [!!!]), nem todas têm a mesma facilidade de acesso.

A Copa

Voltando à Copa, é engraçado – mas muito mais trágico – parar para analisar o comportamento das pessoas em duas situações: a Copa masculina e a Copa feminina. O foco dessa parte será no Brasil, que é meu local de vivência e onde vejo como funcionam as coisas.

De quatro em quatro anos, em anos pares, temos a Copa do Mundo de Futebol Masculino. O país parece parar, todos comovidos em um senso de patriotismo futebolístico. Os chefes liberam mais cedo do trabalho, as ruas são pintadas e enfeitadas de verde e amarelo, os bares superlotam, e outros espaços maiores são alugados para que a maior quantidade possível de pessoas se reúna e transforme o evento numa verdadeira festa. Fogos, vuvuzelas, gritos, comemorações a cada lance que apresenta chance de gol e desespero a cada lance perigoso dos adversários. Uma verdadeira euforia coletiva toma conta do país de norte a sul. As emissoras se “esbofeteiam” a fim de conseguir transmissões exclusivas. Os lojistas deixam seus estabelecimentos com “a cara” do Brasil, tudo verde e amarelo, e muitos artigos relacionados à Copa são vendidos em cada esquina.

De quatro em quatro anos, em anos ímpares, precedida pela Copa masculina, acontece a Copa do Mundo de Futebol Feminino. Porém, comoção e envolvimento nacional com o evento foi algo que passou despercebido. Inclusive, só fiquei sabendo que estava acontecendo Copa do Mundo por acaso, por meio de um post no Facebook que criticava justamente a falta de interesse pelas mulheres que suam a camisa em nome dum país que, sinceramente, não deu um terço da bola que elas jogaram (peço perdão pelo trocadilho). Todo mundo lembra o 7×1 de 2014, mas quem sabe qual foi o time que tirou nossas meninas da competição? Ao menos lembram em que fase elas chegaram? Uma transmissão ali, outra acolá, mas todos, ou a grande maioria dos olhos estavam voltados para a Seleção masculina, que estava jogando a Copa das Américas – um campeonato que nem se compara a uma Copa do Mundo – ou para a situação dos times locais no Campeonato Brasileiro.

As perguntas que ficam de minha parte então são: até quando nós, mulheres, ficaremos em segundo plano (ou plano nenhum) nessa hegemonia masculina que vivemos? Quando as pessoas vão acordar para o fato de que mulher é capaz de fazer qualquer coisa tão bem quanto, ou melhor, que os homens? Quando a sociedade vai deixar de julgar as mulheres pelo corpo, pela roupa que vestem, pela forma como se comportam e passará a apreciá-las pelas suas habilidades, talentos e personalidade?

É impossível que eu, como pessoa, me conforme com tamanha falta de apreço e desprestígio que tantas e tantas mulheres sofrem por aí.

Errata: As informações sobre movimentação de dinheiro no Brasil originalmente no post estavam em torno de milhões. A atualização muda para bilhões.

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Revisado por Jay.

SOBRE O AUTOR

tem 21, faz um trilhão de coisas e procrastina em todas elas. Além de graduanda em Letras Inglês pela UnB e estagiária no Ministério da Justiça, é uma nerd sem causa, super fã de livros, séries e filmes medievais/fantasia e de ficção científica. Introvertida, adora passar seu tempo em casa lendo, escutando música, assistindo ou jogando alguma coisa. Vacilante entre as personalidades INFJ e INTJ, tenta sobreviver com alguma sanidade. Sonha muitas coisas, dentre elas: ser escritora, streamer de games e morar em Londres.