Quem é ela pra se dizer feminista?

quemeela

“Fica compartilhando textinho no Facebook, mas depila a perna, né?”

A menina que estava ao lado deu uma gargalhada e apertou o botão para parar o ônibus.

“E ainda vem me dizer que é feminista.”

E desceram. Uma delas usava um botton da Frida Kahlo na mochila. Fiquei sentada agradecendo não ter ouvido as mesmas palavras aos 17 anos.

Dezessete anos, o ano em que eu descobri o feminismo. Vou confessar uma coisa logo de início: eu estava eufórica. “Meu corpo, minhas regras” tinha aparecido na minha timeline meio que por acaso, compartilhado pela amiga de uma prima. Eu não tinha lido Simone de Beauvoir. Não sabia o que era gênero. Mas sentia que tinha feito uma grande descoberta: meu corpo é só meu. Compartilhei a frase e fui atrás da página que a havia postado. Era uma página feminista.

Na semana em que descobri a página compartilhei frases todos os dias. Nem o espelho do meu banheiro saiu ileso. Pela primeira vez na vida eu tinha me dado conta que o problema estava naquele homem da floricultura que assobiava sempre que eu passava, e não no comprimento do short que eu usava para fazer educação física. Percebi que poderia beijar quantos meninos (e meninas!) quisesse e que ninguém tinha nada a ver com isso.

Eu passava muito tempo em páginas feministas, compartilhando tudo que encontrava. Nessa época eu ainda achava que depilar a vagina era uma questão de higiene. Ainda chamava a moça trans na rua de traveco. Ainda não via problema no menino que queria pagar minha entrada no cinema.

Mas como eu falei antes, naquela época eu tive muita sorte.

Não encontrei nenhuma menina no ônibus para ridicularizar meu feminismo recém–nascido. Era um feminismo capenga, sim. Cheio de contradições. Um feminismo que precisava ser regado e adubado como uma planta.

Nem todas as meninas têm a mesma sorte que eu tive.

Seis anos participando de grupos e percebi que aquelas duas meninas no ônibus estavam longe de serem as únicas a ridicularizar o feminismo alheio. Vi uma menina de quatorze anos ser agredida ao perguntar se o namorado dela poderia pagar o motel quando ela estivesse sem dinheiro. “Tenho uma amiga aqui desse grupo e não sei se ela deveria continuar fazendo parte, porque descobri que ela come carne”. “A minha colega de faculdade se diz feminista, mas percebi que é o namorado que paga o aluguel do apartamento dela”.

Não fiquei quieta diante desses julgamentos. Por que estávamos discutindo a permanência de uma colega no grupo? Não deveríamos estar conversando diretamente com ela?

“O feminismo não é um cobertor quentinho para agradar mina idiota”

Será?

Todas nós sabemos que machismo é um balde de água fria. O machismo é um lugar gelado onde a menina de oito anos lava a louça enquanto o irmão de quinze vai para o quarto descansar.

O machismo espanca e estupra. O machismo mata.

E se o feminismo quer mudar esse cenário ele é sim, um cobertor quentinho. É um coberto duplo que envolveu os ombros da pré–adolescente que teve fotos íntimas divulgadas. É um cobertor que deu segurança à mulher de quarenta anos que resolveu se separar do marido. É uma coberta fofa que mostrou para a moça que ela pode cortar o cabelo da maneira que ela quiser.

Se o feminismo está aqui para empoderar as mulheres e libertá-las dos padrões de opressão, devemos entender que cada mulher e cada menina que chegou até ele possui uma história de vida que só ela conhece.

Debochar de uma feminista que pratica ações que você considera equivocadas não te torna mais feminista. E não, você não está salvando o movimento ao querer que ela saia do grupo do facebook.

Sabe o que você está fazendo? Oprimindo outra mulher.

Está oprimindo uma mulher que está tão inserida no machismo que não consegue ver que está reproduzindo comportamentos, mas que teve a coragem de compartilhar a página que diz que o corpo dela é só dela. Que agora solicitou a entrada no grupo feminista que você faz parte. É, essa mulher come carne e chama de sapatão quem não pinta as unhas, mas ela leu aquele texto que diz que ela não é vagabunda por gostar de usar saia curtinha e algo dentro dela mudou.

Essa mulher tem muito que aprender. Não solicite a remoção dela do grupo do facebook.

“Então o feminismo é lugar para mulher idiota?”

O feminismo deveria ser lugar para todas as mulheres, não só as que pensam como você. Deveria ser um lugar seguro para rever preconceitos. Amadurecer ideias. Tentar compreender o que levou outra mulher a emitir uma opinião preconceituosa e dialogar com essa mulher é muito mais construtivo do que ofendê-la. Lembre: ela também não se beneficia com o machismo. Nenhuma de nós se beneficia.

Da próxima vez que ver uma menina sendo julgada dentro do feminismo, não seja um balde de água fria. Deixe os julgamentos para o machismo.

Revisado por Juliana Skalski

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