O protagonismo feminino nos animês – Part. 1

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Texto compartilhado com o Literatortura

Os animês tornaram-se grandes fenômenos sociais desde da década de 1990, com a exibição de grandes produções como: Cavaleiros do Zodíaco, Pokémon e Dragon Ball Z. Contudo, as animações japonesa acabaram sendo classificadas como obras voltadas ao público infanto-juvenil, que não trazem grandes reflexões sobre a vida ou que apelam para cenas de lutas extraordinários e efeitos visuais chamativos. Contudo, eu irei apresentar três animações japonesas, pouco conhecidas do grande público e até mesmo dos aficionados pela cultura pop nipônica (otakus), que iram trazer uma reflexão interessante sobre o papel da mulher na sociedade, trazendo um protagonismo mais que merecido para elas.

Kino no Tabi ~the beautiful world~

Baseado na light novel escrita por Sigsawa Keiichi, Kino no Tabi foi publicada desde 2000 contendo 18 volumes chegando a vender mais de 8 milhões de cópias. A obra já recebeu uma gama de adaptações, passando por visual novels (game no estilo adventure), CD Drama, Art Books e animês. O romance já esteve entre as melhores no Kono Light Novel ga Sugoi!, que é uma premiação visando escolher a melhor novel de cada ano.

A história desse animê está centrada na Kino, uma viajante que vaga pelo mundo conhecendo lugares diferentes. Cada local visitado é chamado de acordo com aquilo que mais o caracteriza. Por exemplo, há “o país da dor aparente”, “a terra onde o amanhã nunca chega”, “o país dos livros”, e assim por diante. Cada lugar que Kino visita tem as suas próprias características e costumes, com todos os seus pontos positivos e negativos. Para acompanhar Kino nessa jornada, temos a sua moto falante Hermes, que dá o rumo da narrativa da história.

O animê tem um subtítulo enigmático e até certo ponto enganoso, pois quando lemos acreditamos que a jornada feita pela Kino vai ser por um mundo belo, lindo ou tirado de um conto de fadas. Contudo, duas frases são mencionadas constantemente na obra: “Esse mundo não é bonito, porém justamente por isso ele acaba sendo bonito” e “Quando alguém vê um pássaro, esse mesmo alguém passa a ter vontade de sair numa jornada”.

O mundo visto pela Kino é uma representação daquilo que conhecemos na sociedade e os problemas que ela enfrenta. Muitas questões são abordadas no animê de forma genial, e envolvem temas políticos, sociais, econômicos, militares, tecnológicos, religiosos, entre outros. Há representações de vários tipos de sociedades que enfrentam questões ideológicas, desde os avanços da tecnologia, o apego irracional às tradições e valores religiosos, a desigualdade financeira, a autocracia dos militares, e assim por diante. Dentro de cada cenário visitado pela Kino, temos a aparição de muitos temas e personagens que carregam um ar nítido de hipocrisia, e mostram todas as contradições existentes em qualquer sociedade humana.

Por fim, devo avisar que Kino no Tabi não é o melhor animê em termos técnicos, mas compensa com seu conteúdo e reflexões fazendo-nos questionar as nossas próprias ações. Você é o que você pensa? Ou você é o que você sente? Eu influencio o meio em que vivo? Ou sou influenciado por ele? Uma mentira contada várias vezes, se torna verdade? E uma verdade discordada por todos, se torna mentira? Enfim, cada episódio desse animê carrega questões sérias, que se fazem presentes em todos os graus da sociedade humana. Recomendo assistir um episódio por dia e refletir sobre as questões abordadas, mesmo aquelas que pareçam ser banais num primeiro olhar. Quando terminar, verá que o mundo a sua volta poderá ser visto de diversas outras formas.

Saiunkoku Monogatari

Baseado na Light Novel escrita pela Sai Yukino e ilustrada pela Kairi Yura, Saiunkoku Monogatari foi publicada pela Kadokawa Shoten entre 2003 até 2011 tendo uma boa aceitação do público, foi adaptada em mangá (2005-2012) e em animê (2006-2008). A animação foi produzida pela Madhouse Studios, uma das maiores empresas de produção de animês e foi transmitida pela NHK.

Saiunkoku Monogatari conta a história de Shurei Hong que é descendente de uma família nobre do império Saiunkoku, contudo sua família caiu na miséria. Seu pai, Shoka Hong, trabalha como bibliotecário no palácio imperial, cargo esse de grande prestígio e pouca compensação financeira. Shurei desde pequena sonha em passar nos exames imperiais e trabalhar em um posto no governo. Contudo, esse exame era feito exclusivo para homens, mesmo assim a Shurei sempre estudou com muito afinco e com esperança de que o imperador revertesse essa questão. No meio tempo, a Shurei trabalhava como professora de sua aldeia, cargo esse não remunerado e por isso fazia alguns pequenos trabalhos para tentar sobreviver juntamente com seu irmão adotivo, Seiran Shi.

Após a morte do imperador de Saiunkoku, Ryuuki Shi assume o torno, só que ele é desinteressado dos assuntos da corte e tem uma reputação de ostentar seu amor por homens. Por esse motivo, o Grande Conselheiro do antigo imperador faz uma oferta “irrecusável” para Shurei: se ela aceitasse passar seis meses no castelo sendo a concubina do imperador receberia a quantia de 500 moedas de ouro. A princípio, Shurei fica receosa com a proposta, mas depois de saber da fama do imperador e pensar em como esse dinheiro ajudaria a reformar sua casa que está caindo aos pedaços e também a cuidar da escola da vila, ela aceita o cargo, mas o que parecia ser uma tarefa fácil se torna um desafio para nossa protagonista.

Saiunkoku Monogatari passa-se num cenário que remete a China Antiga trazendo uma série de elementos que fazem referência a cultura chinesa como os Hanfus, roupas tradicionais da etnia Han. A fotografia e a trilha sonora do animê são um espetáculo à parte, atraindo cada vez mais o espectador a prestar atenção no ambiente retratado. Recomendo a música de abertura do animê Hajimari no Kaze interpretado pela cantora Ayaka Hirahara.

Acredito que o ponto chave da história é a questão política, principalmente voltada para o direito feminino. Shurei protagonizará uma mudança no reino de Saiunkoku na perspectiva de que as mulheres merecem ter as mesmas oportunidades que os homens com relação ao emprego. Provando que tem capacidade de exercer qualquer tipo de função que lhe for designada, Shurei supera o preconceito e as barreiras impostas a ela e transforma-as em força para conquistar os seus sonhos.

Trazendo o debate para atualidade, Saiunkoku Monogatari nos faz refletir sobre a resistência da sociedade em aceitar mulheres exercendo cargos de liderança ou de poder. Na história, o argumento levantado para não aceitar a inscrição da Shurei no exame imperial é que a tradição define que só homens podem fazer o exame. Com isso podemos refletir que nem toda lei ou tradição tem princípios racionais. No exame em si, o que era exigido do candidato era um grande conhecimento sobre economia e política do reino e habilidade de gestão. A Shurei demonstra ter competência e capacidade de administrar o reino enquanto ensinava o imperador a ser um bom governante, então porque negar o acesso dela ao exame?

Por fim, devo ressaltar que Saiunkoku Monogatari é um animê longo, tendo duas temporadas de 39 episódios, o que pode desanimar alguns espectadores a acompanhar a obra. Como em Kino no Tabi, essa obra é bem reflexiva, então tem que ter atenção aos detalhes que surgem no decorrer da narrativa. A qualidade técnica é uma maravilha, os cenários lembram os quadros de Qiu Ying e a Shurei parece uma das musas do Chen Yifei.

Samurai Champloo

Diferente das outras duas indicações, Samurai Champloo é uma história original dirigida por Shinichiro Watabane, exibida entre 20 de maio de 2004 até 19 de março de 2005 pela TV Fuji. Watabane ficou mundialmente famoso, após a produção de Cowboy Bebop, e dando continuidade ao sucesso, Samurai Champloo trouxe à tona o melhor das características dele. Samurai Champloo é uma história bem-humorada, com personagens representados com grande densidade psicológica e uma ambientação através da música.

A série é representada no Período Edo, numa versão ficcional do xogunato Tokugawa. Quando me referi a fictícia quis ressaltar uma característica presente na obra que é a mistura dos elementos tradicionais da época, como os quimonos e as katanas, com elementos modernos como o hip hop e o break dance. Por esse motivo que o animê chama-se Samurai Champloo, pois a palavra “champloo” vem do dialeto de Okinawa “chanpuruu” que significa “mistura”.

A obra do Watabane teve uma preocupação em fazer um levantamento histórico de certos acontecimentos do Período Edo que são representados na obra, dando destaque como foi apresentado a Rebelião de Shimabara (1637-1638), uma revolta camponesa contra os altos impostos e pela perseguição aos cristãos locais.

Watabane nos ensina de maneira genial a como se compor uma boa narrativa. A princípio temos três histórias simultâneas acontecendo. Num primeiro momento vemos uma garçonete (Fuu) de uma casa de chá trabalhando e que está passando por um momento de crise com o filho do magistrado local (Shibui Tomoshina). Simultaneamente a isso temos um samurai encrenqueiro (Mugen) que vai ao estabelecimento e interfere na discussão da Fuu com o filho do magistrado, contudo ele e seu grupo sacam suas espadas e começa a luta e Mugen acaba matando-o. Em outra cena vemos um samurai andarilho (Jin) que vai parar no mesmo estabelecimento e é envolvido na briga com o Mugen. No decorrer da luta, eles percebem que nenhum deles tinha enfrentado um adversário tão poderoso quanto o outro e travam uma batalha com cenas alucinantes.

Quando a confusão ameniza, e os dois samurais estavam bem cansados, eles são presos e vão ser executados por ter matado o filho do magistrado. Na hora da execução, surge a Fuu que os salva, mas em troca eles teriam que ajudá-la a encontrar o samurai que cheira a girassóis e servir de guarda-costas nesta jornada. A princípio, eles odeiam a ideia, mas no decorrer da história, os laços de amizade vão se construindo.

Um dos elementos mais constantes na história de Samurai Champloo são as tiradas humorísticas, que são resultados de elementos anacrônicos que não deveriam estar presentes no período do xogunato Tokugawa. Um dos elementos que é bem visível são os óculos do personagem Jin. Outros elementos que está presente é o estilo de luta de Mugen, que mistura o combate da capoeira com passos de break dance.

As cenas de luta têm influências principalmente nos filmes chanbaras (filmes de combate de espadas). Samurai Champloo eleva o nível dessa produção com cenas de lutas alucinantes e demonstração de técnicas do Iaidô e Iaijutsu (são artes marciais japonesa de desembainhar a espada). Mesmo tendo dois personagens masculinos forte, Jin e Mugen, a personagem que mais se destaca é a Fuu, que ficou órfão muito cedo e conseguiu escapar da prostituição, pois na época mulher jovens sem proteção da figura masculina ter que recorrer a esse tipo de trabalho para sobreviver. Podemos ainda perceber a inteligência e a habilidade da Fuu em várias partes da história, dando destaque ao seu poder de persuasão e de criar planos para conseguir seus objetivos.

Por fim, Samurai Champloo é um animê que tem 26 episódios e de história completa. Tanto o design gráfico dos personagens como as passagens retratadas são belíssimas. Outro elemento sensacional é a trilha sonora com grandes cantores do hip hop japonês, dando destaque a abertura do animê, Battlecry do Nujabes feat Shing 02.

Revisado por Juliana Skalski

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