AMORTEAMO – Uma obra além de Tim Burton e The Walking Dead

       No dia 8 de Maio, a rede Globo levou ao ar sua nova minissérie “Amorteamo”. Centrada em dois triângulos amorosos que tem desfechos trágicos, a obra traz alguns atores que andavam longe dos holofotes da emissora, como Leticia Sabatella, Daniel de Oliveira, Jackson Antunes, o fantástico Tonico Pereira, além dos jovens atores Johnny Massaro, Marina Ruy Barbosa e Arianne Botelho.

       A história se passa na Recife de 1900 e conta a história de amor entre Arlinda (Leticia Sabatella) e Chico (Daniel de Oliveira). Arlinda é casada com Aragão (Jackson Antunes), e quando o marido descobre a traição da esposa, flagrando-a com o amante na cama, Aragão mata Chico. Dessa tragédia nasce Gabriel (Johnny Massaro) fruto do romance com o amante assassinado. Gabriel cresce acreditando ser filho de Aragão e se apaixona por Lena (Arianne Botelho), filha da empregada de sua casa. Mas o romance é interrompido, quando a mãe de Lena, Zefa (Gheusa Sena) revela que Lena é filha de Aragão. Gabriel, sem saber a verdade, acredita estar apaixonado por sua irmã e acaba se envolvendo com Malvina (Marina Ruy Barbosa). Porém no dia de seu casamento, Arlinda revela ao filho a verdade sobre seu pai e Gabriel abandona Malvina no altar para ir à busca de seu antigo amor, Lena. Malvina ao ser abandonada no altar, comete suicídio, fazendo com que Gabriel sinta remorso por sua atitude. Em um gesto desesperado, Gabriel desenterra o corpo de Malvina e o leva para casa. Malvina volta à vida juntamente com os outros mortos da cidade e todos buscam vingança pelo assassinato cometido por Aragão.

      Após a estreia circularam vários artigos pela internet, e quase unanimemente todos os textos fizeram referência ao famoso diretor Tim Burton ou a série americana adaptada das HQ’s “The Walking Dead”. A comparação com referências estrangeiras não é tão ruim assim, afinal chama a atenção para fãs do gênero. O único problema é que simplifica e ofusca as melhores qualidades da produção, que não são poucas.

       Começando pela parte técnica, a obra foi escrita por Cláudio Paiva (A Grande Família) e os nordestinos Newton Moreno (Prêmio Shell de 2005 de melhor ator e conhecido por escrever de forma teatral) e Guel Arraes (Diretor de Auto da Compadecida e Lisbela e o Prisioneiro), a diretora Flávia Lacerda (Louco por elas, Sexo Frágil) e o dramaturgo recifense João Falcão (O Auto da Compadecida) responsável pela trilha sonora.

        Baseada no livro de Gilberto Freyre, “Assombrações do Recife Velho”, a obra chama bastante atenção pela qualidade visual, pela linguagem típica da região e da época e pela trilha sonora, que ficou a cargo de João Falcão e do músico Juliano Holanda que regravou as músicas de seu trabalho “A Arte de Ser Invisível” de 2013. As músicas Ouriço, Altas Madrugadas são temas dos personagens e algumas inéditas foram cantadas por Leticia Sabatella. Impressionante como as músicas, sendo contemporâneas conversam com uma obra de época.

        Amorteamo traz em si muitas referências da nossa cultura. É impossível não se lembrar dos nossos grandes escritores, da literatura de cordel, da dramaturgia de Ariano Suassuna. A dramaturgia é um fator importante, pois embora a série tenha sido produzida para a televisão, a obra parece ter sido adaptada do teatro para a tv, e a atuação impecável dos atores nos dá essa sensação.

         Retornando ainda mais ao passado, ao assistir a série é possível vislumbrar a possibilidade de termos os textos de Cruz e Souza, Manoel Bandeira, Augusto dos Anjos e principalmente de Alvares de Azevedo adaptados para a televisão. Afinal o tema da obra tem muita relação com a poesia ultrarromântica do século 19, dos poetas relacionados ao chamado “Mal do Século”. Lembrando que Alvares de Azevedo morreu aos 20 anos de idade, vitima de tuberculose agravada pelos excessos, é possível notar a melancolia de seus textos no personagem Gabriel interpretado pelo ator Johnny Massaro e na Arlinda, vivida por Leticia Sabatella. A imagem da série nos traz à memória poemas famosos do melancólico poeta do século 19. Ideias íntimas, É Ela!, Solidão, A Morte e o Amor, parecem ter sido inspiração para os responsáveis pela produção televisiva.

            Esses autores foram obviamente influenciados por outros autores estrangeiros e seus movimentos, romantismo, simbolismo, o sentimentalismo etc. Mas o fizeram dentro de uma ambientação nacional. A série Amorteamo, traz de volta à discussão os sentimentos imperativos, a mulher amada, o jovem amante apaixonado a ambientação lírica. Em arte é bastante complicado realizar afirmações, mas a série não possui o clima de ação, tensão e suspense que a série americana The Walking Dead propõe. E a comparação entre as obras de Tim Burton, também é descabida. As cores escuras e os tons utilizados são característicos de uma obra de horror, mas ainda assim não é tão caricato quanto o diretor de A Noiva Cadáver. A minissérie é mais sensível, mostra o regionalismo com suas superstições religiosas, lendas e costumes.

        Não apenas a série Amorteamo, mas também outra produção que foi ao ar na mesma semana, A Cura, interpretada pelo ator Selton Mello, mostram a capacidade e a qualidade da indústria cinematográfica brasileira. Por isso afirmo que a comparação com as obras estrangeiras é no mínimo injusta e em certa medida, falta de conhecimento da própria cultura nacional. Através da minissérie é possível mostrar a variedade de referências que possuímos na história, cultura, arte, literatura do Brasil, principalmente aos mais jovens. Mas ao lançar um texto fazendo essa comparação entre a produção brasileira e as produções americanas, é possível que o público mais jovem vá à busca de elementos que não irão encontrar, como caçadores de zumbis, caveiras dançarinas etc.

       O ponto negativo fica a cargo da própria programação da rede Globo. A série foi exibida em uma sexta feira, após o Globo Repórter, programa que termina por volta da meia noite. De qualquer forma as minisséries sempre foram os pontos positivos da emissora e nos faz pensar que o Brasil tem a possibilidade de produzir séries de maior duração e com qualidade.

SOBRE O AUTOR

Wagner Galesco é artista plástico e arte educador formado pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Pesquisador nas áreas de educação, estética e história da arte não européia, adora a integração entre o papel de artista e o de professor, trabalhando em todas as linguagens artísticas. Curta Wagner Galesco: