“Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar” – Conheça a mostra que encantou SP

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Por Monique Almeida

No período de 6 a 15 de março, fomos contemplados com a MitSP, ou Mostra Internacional de Teatro de São Paulo. O festival, que teve sua primeira edição no ano passado, trouxe em peso como tema os conflitos sociais atuais, a exemplo da relação da Rússia e Ucrânia. Com diretores visionários e atores completos, a sensação na plateia era de choque e espasmo. Diferentemente da edição anterior que não conseguiu comportar apropriadamente os 14000 espectadores, alguns espetáculos foram cobrados e o controle de público foi feito por meio de compra/reserva na internet, além dos pontos de venda, evitando filas quilométricas que não eram a certeza de garantir o ingresso.

            As montagens trouxeram abordagens de modo contemporâneo e as propostas eram das mais inusitadas. Considerando um tempo onde não se tem tempo, quão curiosa soa a proposta do diretor ucraniano Yuri Butusov ao trazer o denso texto de Tchekov, “A Gaivota”, dividida em 4 atos com duração de 4h45min?

            “Já dirigi peças curtas, mas não existe regra para isso. O espetáculo deve durar o quanto exija”, defende. E definitivamente, ao entrar em cena, pede permissão ao público de forma literal e pergunta se estamos prontos para que iniciem a peça, pois há muito a ser dito.

            A obra é datada de 1896, mas o objetivo do autor, Anton Pavlovitch Tchekov, era retratar a vida, portanto, o texto se mantém atual. Apesar da crítica recebida na época, em um século XIX que o romantismo e o exagero dominavam as artes, “A Gaivota” é um misto de sutileza e agressividade, pois em sua essência é sobre sonho e fracasso, a expectativa e a tentativa.

            Treplev, um jovem escritor, decide montar uma peça no vilarejo em que vive para provar sua capacidade para a mãe, Arkádina, uma atriz em decadência, que, por sua vez, está apaixonada pelo escritor Trigórin, quem, por sua vez, “descobre” Nina – garota do vilarejo que foi escolhida para fazer o principal monólogo da peça de Treplev e se encanta por Trigórin, deixando-se incentivar a abandonar tudo e seguir seu sonho em Moscou.

            Esse núcleo de dualidade abre portas aos outros personagens, desde aquele que se culpa por ter passado a vida inteira em uma repartição e nada ter feito de interessante, até a dançarina/observadora inserida por Butusov na história, qual serve como ponte entre o público e o espetáculo.

            Yuri está certo quanto ao tempo. Não sentimos o mesmo passar enquanto envolvidos pelas repetições das cenas que, mais do que apresentar outros pontos de vista sobre o mesmo fato, permitem ao espectador explorar a riqueza do ser humano por si. Um universo completo de cada um enquanto observamos a cena, que valoriza muito mais o conflito interno do que a situação em si. Como é cuidar do rosto ferido do filho que clama por amor? Como lidar com o sonho e a culpa de se encantar pelo inatingível? Qual a sensação de ser uma “gaivota”, resguardada por um simbolismo profundo, livre e que é morta por um homem que caminha ao acaso?

            Através de muita sensibilidade, Yuri e seu elenco ultrapassam as barreiras da linguagem e mostram que ser humano está além de ser do leste ou oeste europeu, além de falar um idioma eslavo, mas sim na capacidade de suportar. “Só louco faz teatro, porque mata”. Esgota os atores apresentando o máximo do perfeccionismo na voz, na interpretação e na dança, mas agradece poder, através da arte, oferecer uma resposta a toda a crise que está ocorrendo na sua terra de origem. Não é em vão, afinal de contas, que essa montagem foi escolhida para a abertura do festival no Auditório do Ibirapuera.

            A proposta da MitSP foi justamente utilizar a abertura artística para fazer um ato político. Em algum lugar, russos, ucranianos, alemães, brasileiros, italianos, e tantas outras origens, puderam compartilhar uma experiência, com um mesmo propósito. Foram 12 espetáculos (A Gaivota, E se elas fossem para Moscou, Senhorita Julia, Julia, As irmãs Macaluso, OPUS No 7, Canção de muito longe, Stifters Dinge, Arquivo, Woyzeck, Morrer de Amor e Matando o Tempo). Trazendo ao Brasil um festival verdadeiramente internacional, enriquecendo o público com uma “pequena amostra” do que há pelo mundo.

            Enquanto isso, somente nos resta aguardar ansiosamente a próxima edição.

FONTES:

http://www.parana-online.com.br/editoria/almanaque/news/863240/?noticia=MITSP+CHEGA+COM+12+ESPETACULOS+A+2A+EDICAO

www.mitsp.org

http://www.casadeteatropoa.com.br/textos/mural/A_Gaivota_Tchecov.pdf

http://cultura.estadao.com.br/noticias/teatro,mitsp-e-vitima-do-proprio-sucesso,1142347

http://mitsp.org/

https://catracalivre.com.br/sp/agenda/barato/mostra-internacional-de-teatro-exibe-dez-pecas-em-varios-espacos-da-cidade/

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2015/03/1598575-so-louco-faz-teatro-porque-mata-diz-diretor-russo.shtml

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