Mulheres da Alemanha e Alsácia | Um passado de roupas preservado

imagem de capa mulheres

Os móveis de mogno, a toalha de renda branca pura repousando na mesa que ela costumava colorir com os vegetais colhidos da horta e de onde observava a mãe cozinhar, suar diante da panela enorme que mexia com paciência. Era surpreendente ainda ter lembranças tão vívidas agora que já era avó e a mãe a deixara num passado longínquo.

Não só pela imagem esmaecida da mãe agora a já senhora dona da casa retomava o passado. Enquanto os netos já adolescentes vinham visitá-la com moletom, calça jeans e tênis, ela via suas roupas como o ritual que trazia para perto, nas horas em que os portava, a mãe, a infância, a tradição que seu pai tanto honrava.

O broche e a luva adornada de pérolas, o véu preto da agora viúva, os tecidos e aventais que se cruzavam na cintura, no corpo já envelhecido. Ela sentava na poltrona que fora do marido e observava placidamente a família atual de filhos e netos arrumando agitadamente a mesa do almoço. Os jovens falavam alto, suas vozes refletiam na casa e nos móveis que foram da bisavó. Era curioso constatar a cegueira daqueles jovens diante da história que cada pedaço da casa carregava, cada dor e doença sofrida, cada prece proferida.

Vestir-se era a certeza estável que ela, quando jovem, carregava no tecido como palavras que haviam sido sussurradas enquanto a mãe ajeitava o cabelo dela em um coque de tranças. No passeio dominical com a família na Igreja, ela observava a massa de vestimentas e via como o silêncio que cada família preservava era dito casino online pelo farfalhar das roupas. Onde moravam, a condição financeira, se a jovem era solteira, se era uma viúva precoce, a região do país que povoavam. As roupas falavam mais do que o contato permitia, numa comunicação tácita, em pistas deixadas no chão pelas rendas que passavam.

Ela gostava desse silêncio repleto de segredos que as roupas diziam. Ser uma das poucas a preservar a roupa que outrora era tradição numa sociedade estranha, cheia de signos estranhos, vastos. Ela ria como se soubesse de um segredo: os jovens à sua frente achavam que possuíam uma particularidade nunca copiada quando usavam seus moletons e jeans. A verdade é que tanto ela – com suas roupas tradicionais do século passado – quanto os jovens, vestiam uma identidade coletiva. Não eram totalmente intocáveis.

Era esse o triunfo da roupa. Ela vestia, ela adornava, ela possuía o discurso, ela possuía uma autonomia que escapava dos olhos. Assim, ela gostava de usar seus véus e tecidos ainda nesse domingo. Observava o mundo continuar funcionando, do seu trono real e conversando com as roupas que conheciam seu passado. Tecidos que ainda podiam falar por ela.

Minha prosa poética foi baseada na matéria traduzida pelo site Vice, Os Trajes Tradicionais das Camponesas na Alemanha e Alsácia. A matéria é tão fantástica que não daria para adaptá-la, ela em si já é suficiente. Vale ler, tem mais fotos e a história de cada uma dessas mulheres!

Por isso escolhi o formato da prosa poética, só para desvendar um pouco do mistério dessas poucas mulheres que ainda preservam a tradição. As fotos e o relato são de Eric Schütt, que começou a procurar por mulheres que ainda usavam roupas tradicionais para o projeto fotográfico Burenkleider: Burska Drasta, ou Trajes Tradicionais das Mulheres Camponesas na Alemanha e Alsácia.

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Marina Franconeti escreve todas as terças-feiras para o Fashionatto

SOBRE O AUTOR

21 anos, graduanda em Filosofia na USP. Escritora e cinéfila em formação, acha que qualquer dia desses vai se afogar na pilha de livros que precisa ler. Tem muito amor por sua biblioteca particular composta pelo primeiro livro que leu na vida, um infantil sobre Picasso, aos 7 anos, até as obras de Filosofia e Estética, que certamente vai reler até ficar velhinha. Bem lá no fundo acredita que Woody Allen vigiou seus sonhos e, assim, resolveu escrever o roteiro de Meia-Noite em Paris. Mantém o blog: http://marinafranconeti.wordpress.com/