As amarras do feminino – sobre Platão, Beauvoir e feminismo

Simone de Beauvoir

Você pensa assim porque é uma mulher. Mas eu sabia que minha única defesa era responder: penso-o porque é verdadeiro, eliminando assim minha subjetividade. Não se tratava, em hipótese alguma, de replicar: E você pensa o contrário porque é um homem, pois está subentendido que o fato de ser um homem não é uma singularidade; um homem está em seu direito sendo homem, é a mulher que está errada.[1]

Antes de tudo, o que é o famoso “Mito da Caverna”, de Platão? É basicamente assim: imaginemos uma caverna onde apenas uma fresta de luz consegue entrar. No interior dela, há indivíduos que nasceram e viveram dentro e somente nela. Eles estão de costas, acorrentados e não conseguem se mover, o que não permite a possibilidade de mirarem os olhos para qualquer outro ponto senão a parede, onde as sombras de outros seres são projetadas, assim como seus ouvidos captam os ecos que vem de fora.  Obviamente, os prisioneiros associam a imagem – isto é, as sombras – aos sons que escutam, e julgam que isto é a realidade. Contudo, um prisioneiro consegue se libertar e, aos poucos, devido à sensibilidade a luminosidade que tal pessoa tem, dirige-se à saída da caverna. Ele descobrirá um mundo inteiramente novo e se surpreenderá.

Agora, caso ele decida voltar até a caverna para revelar aos outros que a realidade que estes enxergam é apenas uma sombra daquilo que é real, correria, segundo Platão, sérios riscos de abuso: poderiam ignorá-lo; mas também poderiam se revoltar e o tomarem como louco e inventor de mentiras.

O que ele quer transpassar com essa alegoria é a escuridão a qual o homem está tomado. Em sua filosofia, é uma analogia para o mundo sensível e o mundo material, onde o primeiro representa o mundo e o segundo a caverna. A própria luz é uma metáfora para o conhecimento, este que você vai adquirindo por medidas – assim como deveria se acostumar com a luminosidade aos poucos -, e o que saíra poderia ser visto como o filósofo. Porém, não estamos mais na Antiguidade Clássica, e, ainda assim, o seu texto retrata um assunto contemporâneo. Ao não sermos completamente fieis a Platão, e considerarmos apenas sua Teoria do Conhecimento, podemos ver que a contemporaneidade de seu mito está nas correntes que prendem os indivíduos e a luz da sabedoria: o tema abordado está na condição humana entre os estados de sabedoria e de ignorância. O mundo em que os prisioneiros vivem, ou seja, a caverna, é a sociedade agora – em todas as suas instâncias e em qualquer contexto espaço-temporal, porque a ignorância está independente do tempo na medida em que se pode sempre evoluir ainda mais, adquirindo um conhecimento maior; as correntes que os prendem são a ignorância humana; a luz, o conhecimento que o indivíduo vai apanhando durante a vida; o mundo lá fora, teoricamente, um estado de sabedoria plena.

E um último adendo que reforça o fato de que a sociedade ignorante é o problema: o motivo de Platão escrever tal alegoria. Sócrates havia sido seu mentor, e, tendo este se libertado de suas correntes, expressou o pensamento de um mundo totalmente diferente. Desta forma, foi injustamente morto pelos cidadãos de Atenas, o que inspirou que o autor convidasse a todos a pensar nesta situação em especial: os homens ilusoriamente acorrentados a falsas crenças, preconceitos, ideias enganosas e por tudo isso, inertes em suas poucas possibilidades, atacam àquele que alcança a iluminação.

Por isso, o mito está tão presente nas nossas vidas que não conseguimos nem percebê-lo. Em basicamente todas as esferas é possível fazer uma analogia. Seja educação, seja preconceito. E um deles é o feminismo.

Antes de tudo, não podemos considerar que a sociedade está inteiramente dentro da caverna, ou, pior ainda, que as mulheres estão completamente presas. É necessária uma atualização, para a forma que seja possível dizer que as mulheres estão enfraquecendo as correntes, no tempo em que alcançam uma fresta de luminosidade em seu pensamento. Ainda estão presas, e, pior do que isso, ainda não têm a noção perfeita de sua prisão. É por esse motivo que a teoria feminista foi criada, e vem evoluindo por toda a sociedade com o tempo, e os papéis pertencentes às mulheres dentro do contexto social se modificam num sentido de igualdade. Como não há teoria sem que haja prática, o Movimento Feminista surgiu, com cunho social, filosófico e político, que pretende a igualdade de direitos e a vivência de ambos os gêneros sem um sistema patriarcal pautado nos discursos de opressão. Ambiciona libertar dos padrões opressores baseados em normas de gêneros. Para solidificar o pensamento de quê o feminismo é um movimento em ascensão, que pretende destruir os preceitos de dominado e dominador, pode-se fazer um breve histórico sobre as lutas feministas e as “ondas”, forma pela qual se dividiu o feminismo em três momentos importantes de luta para a conquista de direitos: primeira onda, que se refere principalmente ao sufrágio feminino; segunda, onde os ideais e as ações já eram associadas aos movimentos de libertação feminina por igualdade legal e social e a terceira, considerada como uma continuação da segunda onda. E nossas questões atuais, talvez uma quarta onda, voltada para aspectos de libertação sexual. Assim, o ativismo feminino permitiu que as perspectivas predominantes mudassem, como conquistou os direitos legais – de contrato, propriedade, ao voto etc – e também a online casino autonomia da mulher com o seu próprio corpo.

Para a segunda metade do século XX, o papel e a imagem da mulher dentro do imaginário coletivo de toda a sociedade ainda são específicos e presos à ignorância velada. Com isso, remeto à Simone de Beauvoir, e a sua pretensão ao existencialismo feminista[2], em que ela analisa a construção social da mulher como “o Outro”. Isto é, ela acreditava numa oposição por alteridade, em que o “Sujeito” se coloca como essencial dentro da sociedade e o “Outro” como inessencial, ou seja, objeto. A mulher sempre foi vista como uma cópia imperfeita do homem em toda a sociedade, e isto tem reflexo até hoje, porque as próprias mulheres não se consideram um grupo. Neste ponto, ela argumenta que as mulheres foram consideradas, ao longo da história, como anormais e transviadas, e sustenta que os homens eram considerados como o ideal ao qual as mulheres deviam aspirar. Para se colocar como essencial seria necessário que se considerassem como um grupo (como os gays, negros, e diversos outros movimentos oprimidos), e isto não acontece. As mulheres não dizem “nós”, dizem “mulheres” em oposição ao “homem”, e desta forma elas não se colocam como sujeito. E se elas não se colocam como sujeito, a elas cabe o papel de objeto. E isto, segundo Simone, é fundamental para a opressão da mulher. Para o movimento feminista continuar era necessário que esta atitude fosse abandonada.

Por isso, a sociedade ainda está presa em pequenas correntes que não permitem a iluminação do papel do opressor. O movimento feminista acredita que a discriminação ao sexo ainda existe, e a sua proporção é discutível: é necessário que se analise o papel da mulher dentro desse novo contexto social:

Para Rouanet, era como se a voz da sociedade tentasse asfixiar a voz da natureza (da mulher) que pedia o prazer, mesmo que inconscientemente. Jogavam-se os tigres (da moral) em qualquer expressão de fuga ao modelo mulher-mãe-santa, ou seja, uma tentativa de desvirtuar a própria natureza da mulher (tigres X tigres). A intenção era ao final conter sexualmente a mulher para atender aos valores impostos pela moral burguesa. (DE LIRA, André Agra Gomes. Moral sexual: a mulher pós-moderna no “confessionário”.)

O modelo ideal de mulher burguesa à época foi o cultuado durante muito tempo, e perdura no imaginário ocidental até hoje. Esta mulher deve ser completamente oprimida sexualmente: a mulher era símbolo da burguesia, não pertencia a própria natureza humana e sexual, e deveria seguir um modelo idealizado de sexualidade que somente se remetia à procriação e a maternidade. Isto foi uma tentativa de castrar os prazeres femininos quando fugisse ao modelo de moral dominante da época.

Da mesma forma, se você descreve uma mulher correta, num sentido elogioso, ela deve ter uma gentil suavidade, um medo brando, e todas aquelas partes da vida que a distinguem do outro sexo, com alguma subordinação, mas que seja de tal inferioridade que a torna ainda mais adorável. (The Spectator, nº 144, 2:70, apud Leites, Edmund. A Consciência Puritana.)

Entre todos os papéis que a mulher deveria representar dentro da sociedade, desde a pureza, também havia a forma com a qual ela deveria se comportar. O que este trecho nos mostra, é que o papel feminino estava estritamente ligado a uma fragilidade “sadia” – e creio que as aspas são necessárias, porque este termo é um pouco complexo neste contexto. A fragilidade é sadia quanto ao seu sentido natural, mas se ampliarmos para um sentido psicológico, nada tem de sadio em conduzir a mulher a um papel de opressão -, a toda a subordinação que o sexo feminino devia, em todas as instâncias, aos seus dominadores: os homens. O principal problema é que este modelo de mulher burguês ainda vive no inconsciente da sociedade atual: vivemos em períodos de slutshamming, cultura do estupro. A sociedade está tão cega em asfixiar a voz da mulher moderna, impedindo seu prazer, que a culpa por todos os problemas. Há uma opressão forte contra a liberdade sexual e a igualdade dos papéis, quebrando um conceito antigo de feminino/masculino no ato e seus moldes de atitude e personalidade.

A repressão sexual é a postura que o patriarcado atual encontrou de ainda conseguir a manutenção de status, porque a exaltação à castidade feminina e o modelo santificado é uma forma de domesticidade do corpo da mulher. Esta que, de acordo com a luta do feminismo e sua teoria, precisa soltar as amarras para trazer mais luz à caverna (ou, na verdade, soltar os colegas e a eles trazer conhecimento).

 


[1] DE BEAUVOIR, Simone. Le Deuxième Sexe. L’expérience vécue, Paris: Gallimard, 1966.

[2] Como existencialista, aceitou os preceitos de Jean-Paul Sartre – inclusive, um dos grandes influenciadores de seu pensamento – de que a existência precede a essência, e, por isso, cria uma de suas frases que se torna possivelmente a mais célebre: “não se nasce mulher, torna-se uma.”.

SOBRE O AUTOR

tem 19 anos e cursa Letras pela UERJ. Sofre de todas as influências do seu Sol em Peixes, acredita que vadia vai se tornar o maior elogio existente e espera uma new Chanel para (re)desconstruir o gênero das roupas.