Moda e loucura andaram juntas na passarela da 14º edição do Minas Trend

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Quando o primeiro desfile de moda foi criado, lá no começo do século passado, era apenas uma estratégia para mostrar aos potenciais compradores como aroupa ficava no corpo para, desse modo, criar desejo e aumentar as vendas. Mas hoje, tanto tempo depois, é emocionante quando um fashion show ganha papel maior que a sua primeira serventia.

Foi exatamente isso que vi na apresentação da marca mineira de bijux Mary Design durante a 14º edição do Minas Trend; modelos desfilando na passarela não apenas segurando uma peça, mas segurando uma ideia que, no caso, tratava de refletir sobre a loucura no processo criativo. Com o título “Ó pedaço de mim”, a coleção de Primavera/Verão 2015 discutiu as dores e delícias que acometem os criadores durante o processo de elaboração de um pensamento.

Ao som de Chico Buarque, com luzes vermelhas ao fundo da passarela, as modelos entrarem maquiadas de maneira dramática, como se estivessem prontas para uma guerra contra seu próprio espírito. Colares sobrepostos feitos dos mais diversos materiais aumentaram o volume do pescoço das modelos, alguns até cobriam a boca das garotas, e todas vestiam roupas cinzas feitas pela marca mineira Apartamento 03. Esses modelitos não tinham por obrigação ser belos mas, sim, lembrar como são as camisas de força usadas pelos loucos em seus momentos de crise.

E, para deixar tudo ainda mais dramático, ouve momentos em que, na passarela, garotas vieram usando colares de correntes que se arrastavam na pista, passando para o público um sentimento impar de sofrimento. Não ouve quem não parasse de postar fotos nas redes sociais para olhar o que acontecei ao redor. No final, as modelos voltaram todas, se colocaram em frente aos espectadores e, simplesmente, pararam. E ficaram lá, paradas, ao som de Maluco Beleza, cantada por Raul Seixas. Muitas não sabiam se iam embora da sala de desfiles, se batiam palmas ou ficavam sentados esperando as modelos se moverem.

Se o objetivo de Mary Arantes, a mente criativa por trás da marca, era trazer a inquietude angustiante do processo criativo que só quem produz conhece para a vida dos espectadores digo, sem reservas, que ela conseguiu. Eu, como muitos presentes, fiquei sem palavras. Só meu deu ao trabalho de observar como são infinitas as possibilidades expressivas que a moda apresenta para quem sabe dar pitadas generosas de arte ao mundo fashion.

SOBRE O AUTOR

Jornalista, mineira, vegetariana, leitora compulsiva. Entende a moda como um fenômeno multifacetado. Em sua próxima encarnação, tem o objetivo de voltar como Audrey Hepburn em “Bonequinha de Luxo”.